O adeus ao lendário guitarrista Lou Reed
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terça-feira, 29 de outubro de 2013
Thales de Menezes<br>Folhapress 
São Paulo - Foi anunciada domingo a morte do cantor, compositor e músico norte-americano Lou Reed. Ele tinha 71 anos.
Boatos sobre a morte circulavam desde a sexta-feira em redes sociais. Seu agente literário disse que ele morreu de complicações hepáticas. Em abril, Reed foi submetido a um transplante de fígado.
Reed deixa um legado de mais de cinco décadas de carreira, construída sem que ele tivesse cedido a qualquer tentativa mais comercial ao produzir letra e música. Falou de temas desagradáveis, às vezes com guitarras ainda mais desagradáveis.
O músico entrou para a história do rock a partir da segunda metade dos anos 1960, quando criou o grupo Velvet Underground, inspiração para o surgimento de várias gerações de bandas do gênero.
A banda foi apadrinhada pelo artista plástico Andy Warhol (1928- 1987), que usava seu prestígio como mecenas de jovens artistas. As letras de Reed traziam os mesmos personagens dos filmes que Warhol produzia, gente da barra-pesada de Nova York: prostitutas, travestis, traficantes, ladrões e malucos.
Ele manteve carreira solo por mais 30 anos, marcada por discos importantes, radicalismos estéticos e muita rabugice com imprensa e fãs. Costumava desmarcar ou interromper entrevistas e era antipático a abordagens em locais públicos. Seu gênio difícil não impediu - ou talvez tenha até incentivado - um grande culto.
Reed gravou quatro álbuns com o Velvet, entre 1967 e 1970. Depois, seriam lançados discos ao vivo e compilações.
De 1972 a 2007, fez 20 discos solo. "Transformer" (1972) virou clássico, com as canções mais adoradas pelos fãs: "Perfect Day", "Vicious", "Satelitte of Love" e o maior sucesso, "Walk on the Wild Side".
Nunca se transformou em grande vendedor de discos. Com altos e baixos de popularidade, Reed lançou álbuns que passaram em branco para o grande público. Seu último solo foi "Hudson River Wind Meditations" (2007), com longas faixas para serem usadas como trilha sonora de meditação.
Até chegar a essa fase zen - ultimamente se dedicou ao tai chi -, Reed passou anos no "lado selvagem", da vida como canta em seu hit.
Lewis Allan Reed nasceu em 2 de março de 1942, em Nova York e, ainda adolescente, confessou aos pais que gostava de homens e mulheres. Foi tratado com choques elétricos, experiência citada em várias de suas canções.
Em 1961, tocava em bandas e apresentava um programa de jazz em rádio. Três anos depois, conheceu John Cale, virtuoso de muitos instrumentos, e os dois criaram o Velvet Underground.
Ódio aos hippiesO disco de estreia, com a famosa banana desenhada por Warhol na capa, saiu em 1967 e era barulhento e depressivo, completamente diferente do rock psicodélico que tinha então seu auge - Reed odiou até o fim da vida os hippies e Jim Morrison (1943-1971), do Doors, que não era hippie, mas vinha da ensolarada San Francisco.
Ao largar o Velvet, foi um dos criadores do andrógino glam rock, com David Bowie e Iggy Pop. Bowie produziu o bem-sucedido "Transformer", mas Reed pareceu ter medo de começar a agradar. No disco seguinte, "Berlin", surpreendeu com orquestra e som agressivo. A busca pelo "desagradável" teve auge em "Metal Machine Music" (1975).
Sua última e terceira passagem pelo Brasil, em 2010, foi com uma turnê que retomava esse disco. Tocou uma hora de barulho ininterrupto no Sesc Pinheiros, em São Paulo. Antes, em 1996 e 2000, mostrou canções em shows "normais".
Fora dos estúdios e dos palcos, Reed vivenciou o inferno de drogas e devassidão de seus versos. Seu grupo de amigos chegava a pagar químicos para a criação de novas drogas - as existentes não eram fortes o bastante.
Foi casado com um travesti, Raquel, e pagou aluguel por anos para vários garotos de programa e prostitutas.
Reed teria parado de caminhar no lado selvagem nos anos 1990, quando se aproximou da cantora, violinista e artista multimídia americana Laurie Anderson, 66. Eles mantiveram durante três ou quatro anos um relacionamento aberto, e depois Reed teria parado de encontrar outros parceiros.
Quando ele se submeteu ao transplante, Laurie declarou: "Ele estava morrendo. Não acho que ele vá se recuperar totalmente disso, mas certamente ele estará fazendo as coisas dele em breve".


