George Harrison era o beatle mais discreto. E talvez, por isso, paire uma dúvida sobre a importância dele no grupo. Afinal, Lennon e McCartney formavam uma dupla egóica, eram evidência como cantores e compositores. Ringo Starr sempre foi o boa praça, um tempero humorístico. Harrison não se destacava.
A discrição não o invalida como músico, muito menos como integrante de uma banda onde todos os elementos se equilibravam. A notícia de sua morte, divulgada ontem pelo Sky News, da Inglaterra, deve ter chocado os beatlemaníacos mais atentos. George Harrison estava sofrendo de câncer na garganta e faleceu aos 58 anos em Los Angeles às 19h30 de quinta, horário de Brasília , em meio a uma série de homenagens em todo o mundo alusivas aos 40 anos de formação dos Beatles.
Além de composições como ''Something'' e ''Here Comes the Sun'', George Harrison mostrou sua importância na transição entre a banda de sucessos adolescentes e o grupo que buscou rumos alternativos para o rock na segunda metade da década de 60. Atuou na transformação dos Beatles ''moleques'' nos Beatles amadurecidos, em meio à atmosfera hippie. O misticismo de Harrison aproximou o grupo de sonoridades incomuns e ajudou a manter o equilíbrio entre as personalidades de Lennon e McCartney. Após a separação, Harrison se expôs menos à mídia e ironizou o sucesso. Preocupava-se mais com a música e a filosofia.
Ele frequentava a mesma escola de Paul McCartney no final dos anos 50, entrou para os Quarrymen que originou os Beatles e manteve uma carreira coerente. Com o fim do quarteto, fez shows para levantar verba para Bangladesh, lançou um disco de mantras entre outros e produziu o grupo Monthy Python em ''A Vida de Brian''. Seu experimentalismo já era evidente em 1969, quando lançou o segundo álbum solo, ''Eletronic Sounds'', gravado com um sintetizador.
Uma das passagens mais difíceis envolveu uma briga com o amigo Eric Clapton, que lhe roubou a modelo Patti Boyd. A reconciliação ocorreu após Harrison se apaixonar por Olívia, com quem permaneceu até a morte.
Teve altos e baixos financeiros. O disco ''Living in the Material World'', lançado após o sucesso obtido com o hit ''My Sweet Lord'', não emplacou. A própria ''My Sweet Lord'' virou caso jurídico, tratada como plágio de ''He's so Fine'', da banda Chiffons.
A Handmade Films, que ajudou a financiar o grupo Monthy Python, também quebrou. Um dos pontos altos da incursão de Harrison pelo cinema foi a produção do documentário satírico ''The Rutles'', que ridicularizou a beatlemania.
Nos anos 80, porém, ganhou dinheiro e se divertiu com os Travelling Wilburys, ao lado de Roy Orbison, Tom Petty e Bob Dylan. Em 1999 levou nada menos que dez facadas de um fã. Em 2001 George Harrison relançou, em CD duplo, o álbum triplo ''All Things Must Pass'', acrescido de cinco inéditas.
Autor de melodias melancólicas e intimistas, George Harrison ajudou a provar que a música pop podia ser levada a sério. Até o fechamento da edição, o ex-beatle estava sendo sepultado em uma cerimônia familiar e não havia notícias sobre um possível velório público.

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