O adeus à primeira-dama do samba
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terça-feira, 17 de abril de 2018
Marcos Roman<br> Reportagem Local 

Teve batucada no céu em plena noite de segunda-feira (16) para receber a primeira-dama do samba. Dona Ivone Lara foi morar nos braços da paz, aos 97 anos. A cantora e compositora carioca saiu de cena deixando um grande legado musical e uma trajetória merecedora de todas as reverências a quem viveu com maestria e nobreza uma existência inteiramente dedicada à arte. Dona de clássicos que se tornaram obrigatórios em toda roda de bamba que se preze, a artista será eternamente lembrada através de sua obra singular e fundamental na história da música popular brasileira, por ser a compositora de sucesso que criou melodias e versos de sambas imortais como "Sonho meu", "Tendência", "Acreditar" e "Alguém me avisou", dentre outras dezenas de músicas.
Ela estava internada na Coordenação de Emergência Regional, anexa ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, na zona sul do Rio, desde o último dia 13, data em que completou 97 anos, e faleceu em decorrência de insuficiência respiratória. Conforme informações extra oficiais, a artista se internou com um quadro de anemia.
Reverenciada por sambistas de diferentes gerações, Dona Ivone Lara nasceu no Rio de Janeiro, em 1921. Filha de músicos, começou a compor ainda na adolescência. "Com 12 anos ela já compunha, mas como não podia assinar suas próprias músicas naquela época acabou fazendo um acordo com seu primo chamado 'Fuleiro' para que ele assinasse as canções com as quais ele acabou ganhando prêmios", conta a londrinense Juliana Barbosa, professora e produtora cultural que desenvolveu pesquisas de mestrado, doutorado e pós-doutorado sobre o samba.
Segundo ela, o maior legado deixado por Dona Ivone Lara foi ter aberto as portas do universo da criação de sambas para as mulheres. "Dona Ivone era prima de Mestre Fuleiro, um dos fundadores do Império Serrano (criada em 1947) e participou efetivamente da fundação da escola de samba. Mais tarde, em 1965, foi a primeira mulher a ganhar uma disputa de samba-enredo numa escola do Rio de Janeiro. Em entrevistas, ela contou que os compositores Silas de Oliveira e Antonio Bacalhau já estavam atrasados para entregar o samba-enredo à Império Serrano em 1965. E que após horas tentando concluir a composição acabaram pegando no sono após uma bebedeira. Foi então que a habilidosa melodista entrou em cena e terminou de fazer a música 'Os Cinco Bailes da História do Rio.' Esse foi o primeiro samba-enredo da história assinado por uma mulher", esclarece Juliana.
Formada enfermeira, Dona Ivone trabalhou como auxiliar da pioneira psiquiatra Nise da Silveira. "Naquele período ela não conseguia sobreviver apenas do dinheiro da música. A popularidade só foi alcançada quando a cantora Maria Bethânia gravou o samba 'Sonho Meu' em parceria com Gal Costa, no final da década de 1970. A partir daí a compositora foi gravada por grandes nomes da música popular brasileira e chegou a gravar 12 álbuns", afirma a pesquisadora. Clara Nunes, Caetano Veloso, Marisa Monte e Paulinho da Viola estão entre os artistas que gravaram composições da sambista.
A grande maioria das composições atribuídas a Dona Ivone Lara foram compostas em parceria com Délcio Carvalho, com quem criou, entre muitos sambas, "Sonho meu", "Acreditar", "Minha verdade" e "Em cada canto uma esperança". "Ela costumava dizer que só escrevia as letras quando não havia outro jeito, pois gostava mesmo era de criar melodias. Por sorte, seus parceiros musicais conseguiram traduzir os sentimentos dela em letras que falam de temas cotidianos com muita riqueza poética", avalia Juliana.
Nos últimos anos de vida, Dona Ivone se deslocava de cadeira de rodas e era amparada por familiares. Em suas aparições públicas, estava sempre sorridente e alinhada. Onde chegava era ovacionada. "Ela reclamava que as gravadoras não abriram espaço para que ela gravasse álbuns a partir dos anos 1990. Parentes afirmam que ela deixou mais de 30 composições inéditas. Apesar de não ter tido a oportunidade de deixar gravado suas composições mais recentes, Dona Ivone foi muito reverenciada por todos os artistas do universo do samba. Ela se tornou um ícone e merecidamente ganhou títulos como Rainha do Samba e Primeira-dama do samba, ganhando inclusive algumas músicas compostas em sua homenagem", enfatiza a pesquisadora londrinense.
Ela ressalta ainda que a obra e a trajetória de Dona Ivone Lara também foi reverenciada em três livros "Nasci para sonhar e cantar A Mulher no Samba", escrito por Mila Burns (Editora Record); "Dona Ivone Lara A primeira-dama do samba", de Lucas Nobile (Sonora Editora), e "As Bambas do Samba mulher e poder na roda", organizado por Marilda Santanna. (Editora da UFBA).


