O acústico do Ben
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segunda-feira, 03 de junho de 2002
Nelson Sato<br>Reportagem Local 
O cantor e compositor Jorge Ben Jor, que esteve em Londrina há poucos dias, revisa suas canções em CD duplo. Disco chega às lojas pela série unplugged da MTV
Convidar Jorge Ben Jor para gravar um disco acústico soa, quase, como uma redundância em termos. Mas coube a ele protagonizar o 20º unplugged da MTV numa parceria com a gravadora Universal. Como de praxe, o projeto envolveu as gravações de CD, DVD e programa de TV.
Os produtos já chegaram às lojas. A novidade é o reencontro do artista com o violão, que ele renegou por duas décadas e meia ao substituí-lo pela guitarra após gravar o álbum África Brasil (eleito recentemente, pela revista norte-americana Rolling Stone, um dos 50 discos mais cool de todos os tempos).
Prevalece, porém, o repertório revisionista habitual da série. Ben Jor canta desde antigos sucessos como País Tropical e Que Maravilha (na qual insere uma homenagem extra aos Paralamas citando-os na letra) a canções menos conhecidas de sua carreira como Comanche e O Circo Chegou.
A exemplo dos títulos anteriores lançados pela coleção, é provável que este também atinja grande volume de vendas renovando o público do cantor, mentor de gerações de suingueiros. Convém lembrar que o projeto adiou, mais uma vez, a volta do artista aos estúdios.
Ben Jor não apresenta um álbum de inéditas desde 1995, quando lançou Homo Sapiens pela Sony Music. Durante as gravações do Acústico, ele não dividiu o palco com convidados, como vinha sendo regra nos especiais da Music Television. No show, gravado em janeiro, contou com o apoio de duas bandas, um trio de backings vocals e uma mini-orquestra.
O roteiro da apresentação foi reproduzido no CD, que chega ao público em formato duplo: um disco traz a presença da banda Admiral Jorge V, outro traz sua sucessora Banda do Zé Pretinho. A Admiral Jorge V marcou uma das fases mais ricas do músico, acompanhando-o no antológico álbum Tábua de Esmeralda (1974) e no ainda inédito em CD Solta o Pavão (1975).
Foi o grupo original do baixista Dadi e do baterista Gustavo antes de formarem A Cor do Som. A Banda do Zé Pretinho, por sua vez, segue o artista desde o disco homônimo de 1978, responsável pela inclinação funk de seus trabalhos posteriores. O grupo Golden Boys participa com backing vocals somando-se ao naipe de seis metais e à seção de 20 instrumentos de cordas, tudo sob os arranjos e regência de Lincoln Olivetti.
Ben Jor repassa sua trajetória cantando o amor pelo Rio, pelas mulheres, pelo futebol, pelo inusitado, pelo atual, pelo ritmo, pelo esoterismo, pelo samba e pela música. Pinça canções do baú, registrando apenas duas composições feitas após os anos 70: Roberto, Corta Essa e W/Brasil (Chama o Síndico).
O disco A abre com a triunfante Jorge da Capadócia, de sua lavra de criações auto-referentes (Jorge sentou praça / Na cavalaria / Eu estou feliz, porque eu também / Sou da sua companhia / Eu estou vestido com as roupas / E as armas de Jorge / Para que meus inimigos tenham pés / E não me alcancem / Para que meus inimigos tenham mãos / Não me peguem, não me toquem / Para que meus inimigos tenham olhos / E não me vejam).
E fecha com a irresistível Zazueira (Ela vem chegando / E feliz vou esperando / A espera é difícil / Mas eu espero sonhando / Uma flor é uma rosa / Uma rosa é uma flor / É um amor esta menina / Esta menina é o meu amor). Já o disco B abre com Mas Que Nada, primeira faixa de seu mitológico disco de estréia Samba Esquema Novo (1963) e que funcionava como uma carta de intenções (Esse samba que é misto de maracatu / é samba de preto velho / samba de preto tu).
E fecha com Taj Mahal, registrada originalmente no álbum Ben (1972) e regravada em inúmeros discos posteriores com pequenas alterações em seus versos surrealistas (Foi a mais linda história de amor / Que me contaram e agora eu vou contar / Do amor do príncipe Xá-Jehan / Pela princesa Nunts Mahal / Dê, dê, dederedê / Dê, dê, dederedê / Taj Mahal / Taj Mahal).
Refém dos vícios do mercado, o alquimista Jorge apenas administra sua obra retocando aqui e ali suas criações. Saudosistas da antiga pegada ao violão de Ben, ficarão desapontados com as execuções quase domesticadas do registro. Mas, provavelmente, nem estes deixarão de recomendar o CD como um dos mais íntegros da série Acústico MTV, que já anuncia Kid Abelha, Charlie Brown Jr. e Zeca Pagodinho como seus próximos lançamentos.


