O acaso e o resgate
Foi no fim dos anos 80 que o acaso fez Janete El Haouli - professora do Departamento de Artes da Universidade Estadual de Londrina - mudar o rumo da pesquisa que tinha escolhido para a dissertação de mestrado. Em vez de investigar a música na publicidade, quis visitar um novo mundo. Tudo começou em 1989 quando se deparou numa revista com um texto de Demetrio Stratos. O estalo veio com a primeira frase : ''A voz é hoje, na música, um canal de transmissão que não transmite mais nada''. Das inquietações de Stratos, neste período, pouco se conhecia. Na teoria, suas idéias se resumiam a textos esparsos, ensaios onde se alinhavam algumas de suas propostas. Janete foi atrás dos seus conceitos e encontrou também suas origens. Descobriu que o músico era egípcio, filho de pais gregos, nascido em 22 de abril de 1945 na Alexandria. Em 1957 foi para a Grécia, em 1962 chegou à Itália, na fase em que o velho e o novo mundo se encontravam para a revolução dos anos 60, um dos períodos mais criativos da humanidade.
Stratos queria ser arquiteto mas mudaram os ventos e, à maneira de Ulisses, ele foi atraído pela música mas, ao contrário do velho mito, se rendeu. Começou tocando nos meios estudantis e chegou a gravar em 1967 um álbum com sua primeira banda, I Ribelli. Mas foi com o grupo Area (International POPular Group) de rock progressivo que encontraria o impulso que o transformou em cantor e performer de grande expressão. O primeiro álbum do grupo, gravado em 1973, alcançou relativo sucesso. Mas Stratos não havia iniciado sua viagem musical para desembarcar na estação do mercado. Já havia despertado, desde 1970, para a pesquisa da voz humana. O objeto de estudo? O balbuciar de sua filha Anastassia, nascida do casamento com a arquiteta italiana Daniela Ronconi, companheira de toda a vida.
No livro de Janete El Haouli, o encontro de Stratos com as expressões da infância, resulta num capítulo especialíssimo. Para subsidiar a fascinação do músico pelos sons livres emitidos pelos bebês, a autora tece a teoria do ''espelho sonoro'', uma imagem que coloca o universo das crianças em estreita relação com a voz da mãe . Em resumo, o que se exprime e se escuta na infância pode ser música para os ouvidos, como também suscitar sentimentos de agressão, rejeição e outros traumas a serem investigados pela psicanálise, outro campo em que Stratos vai fundo.
Para além das teorias psicanalíticas, Demetrio Stratos é antes de tudo um investigador obsessivo da voz, um sujeito para quem ''a arte é um jogo em que se arrisca a própria vida''. Junte-se a isso, a efervescência desmedida dos movimentos artísticos dos anos 60 e 70. É o tempo dos happenings, da revalorização dos improvisos, da confirmação da quebra dos padrões estabelecidos pela música convencional com seus cânones cheirando ao mofo do século 19. Nos anos 60 e 70 a arte pode tudo. Das viagens remanescentes pelo jazz e o rock constrói-se uma arte de ação política e, sobretudo, de novas posturas estéticas e filosóficas. Stratos se coloca de corpo e alma a serviço do experimentalismo.
Em 1974, ele se aproxima da vanguarda musical, entra no olho do furacão quando interpreta ''Sixty-two mesostics re Merce Cunningham'' de John Cage. Uma parte da música está incluída no disco ''John Cage'', gravado pela Crambs Record. Mas também no palco os recursos vocais ganham a força da expressão total. Corpo e voz. Voz-corpo. Stratos apresenta ''Mesotics'' na Festa do Protelariado Juvenil, em Milão, para uma platéia de 15 mil espectadores. Na Europa, no início dos anos 70 ele já é um cantor singular, que ultrapassa com facilidade as barreiras do artista comum. Pudera, numa análise de Mara Belhau, para o livro de Janete El Haouli, a diretora do Centro de Estudos da Voz de São Paulo, compara a capacidade e a estabilidade da voz de Stratos com os sons produzidos pelos sintetizadores. O artista faz da voz seu objeto de culto, sua arte-obsessão.
A partir de 1976, do rock progressivo do Area ele passa ao experimentalismo puro, aproximando-se do encantamento ritual do som. Grava neste ano seu primeiro disco solo, ''Metrodora''. Nasce o cantor em transe, o xamã aperfeiçoando a voz para os fins do êxtase e da subversão. Stratos criação, Stratos performático, Stratos anárquico, Stratos ''extrato'' concentrando-se na essência visceral dos sons. Tudo para expressar o estado bruto da voz. Como explica Janete El Haouli, em entrevista, trata-se do encontro do artista com as sonoridades perdidas, com a musicalidade da voz sem os filtros culturais. No livro, ela recorre várias vezes aos mitos para demonstrar a origem da nossa rejeição por sons estranhos ou simplesmente a ''recusa do novo''. Diz que feito a ninfa Eco, da mitologia grega, agimos como prisioneiros da repetição, gostando apenas daquilo que nos soa familiar.
Já a subversão de Demetrio Stratos consiste em aplicar todos os recursos da voz para construir a liberdade da expressão sonora. No CD, que acompanha o livro, há 13 faixas. Três são gravações do cantor com o grupo Area, as outras são solos que dão a medida da sua criatividade. Na primeira faixa, uma amostra da sua inventividade vocal. Sobre uma única frase (O tzitziras o mitiziras) ele cria jogos sonoros, uma brincadeira onomatopaica sobre o canto da cigarra, oferece o verso lúdico ao ouvinte. Tem mais. A segunda faixa da coletânea é antecedida por uma intervenção de uma anônima egípcia que pede paz, tema pleno de atualidade através do tempo. A terceira, sétima e décima segunda faixas são gravações de Stratos com o grupo Area, rock progressivo alinhado às vezes com a música do mediterrâneo.
Entre 1967 e 1979, Demetrio Stratos tem sua voz gravada em mais de 20 discos, alguns com o Area, outros em trabalhos solos, alguns ainda em parceria ou colaboração com outros músicos. Seu período mais fecundo vai de 74 a 79, cinco anos em que ele radicaliza o uso da voz a serviço da música de vanguarda. Entre os concertos que fez pela Europa, neste período, destaca-se uma performance com John Cage em Amsterdã, em 15 de junho de 1978, com duração de dez horas ininterruptas. Depois disso, participa de ''Events'', espetáculo apresentado em Nova York com direção musical de Cage e coreografias de Merce Cunningham. Pesos-pesados das artes, como Andy Warhol assinam os figurinos. Neste ano fecundo ainda se apresenta em Cuba, como convidado do XI Festival Mundial da Juventude. Em fevereiro de 1979, vai a Paris interpretar Antonin Artaud e participa em Roma de uma série de recitais. A vida intensa parecia indicar a antevisão da morte prematura aos 34 anos.
Em 13 de junho de 1979, a voz da vanguarda se cala. Demetrio Stratos morre de leucemia no Memorial Hospital de Nova York onde fora se tratar. No dia seguinte, um concerto em Milão, que visava arrecadar fundos para seu tratamento, converte-se numa despedida emocionante: um público de 60 mil pessoas e 100 músicos homenageiam o cantor. O mito havia transposto as fronteiras do mundo. Por causa de suas raízes egípcias, ele gostava de se definir como um ''porteiro'' que guardava a rota de passagem dos povos e das culturas no mediterrâneo. Coincidência ou não, morreu justamente como um ''artista nômade'' - como define Janete - capaz de compreender, à maneira de Penélope, a construção e a desconstrução da delicada trama que une as sonoridades do Oriente e do Ocidente. Pode-se dizer também que morreu de excesso de criatividade.(C.M.)
Serviço: O livro ''Demetrio Stratos - em busca da voz-música'' de Janete el Haouli, publicado em edição independente, será lançado amanhã, no Cine-Teatro Ouro Verde, às 19h30. Em março, o lançamento está previsto para Curitiba e durante o ano em outras capitais brasileiras. No lançamento, o livro acompanhado do CD será vendido a R$ 25,00, depois deverá custar R$ 30,00 nas livrarias. Pedidos podem ser feitos pelo e-mail: [email protected]





