O acaso e as minhocas movem a história do País
As minhocas me dão mais medo do que as serpentes. Os grandes répteis estão à flor da terra, prontos para a picada, mas são visíveis. Os pequenos vermes vão roendo as nossas carnes em silêncio. Muito antes de morrer, já fomos roídos, pelos idiotas ou pelos pequenos detalhes. A pequena história brasileira também me dá medo. Loucos por um controle do mundo, acreditamos nas grandes causas das forças produtivas, quando nossa realidade se move muito pelo detalhe ínfimo de um gesto ou de uma neurose. Gostaríamos que a História do Brasil fosse movida por grandes revoluções. Navegando pela Viagem pela História do Brasil livro-CD do Jorge Caldeira (Cia das Letras), vemos que a onipresença do Estado patrimonialista é tão forte em nossa história, que somos muito movidos pelos detalhes. Temos uma fome do poema épico e só nos restam os folhetins e melodramas. Queremos Homero e sempre recebemos Janete Clair. O Estado Brasileiro está programado para impedir os grandes movimentos, a sociedade civil está estreiando agora, de modo que somos movidos pelas minhocas que escapam pelas frestas do processo.
Nelson Rodrigues (sempre este homem fatal!) descobriu o óbvio, como ele próprio disse. Ali na mixaria, na obra das minhocas, no Acaso estão nossos segredos. O próprio Nelson me contou uma vez que foi convidado pelo Oduvaldo Vianna Filho (o grande poeta dividido entre a política e a poesia) a escrever com ele um roteiro sobre uma mulher que trai o marido: O Adultério. Nelson aceitou. Dias depois ele me telefona e diz: Rapaz, parei com o roteiro. O Vianinha queria que a mulher fosse para a cama do amante movida apenas pelas relações de produção. Este caso é exemplar.
Na história recente, quantos casos temos visto. A tentativa de reformas políticas está fazendo sair da toca todas as toupeiras e roedores da resistência, que fingem defender o Estado, mas só defendem a própria pele. Quantos exemplos de acaso e da petite histoire recentemente.
Vejamos.
Depois das lutas épicas pela abertura democrática, vem a vitória de Tancredo Neves para a presidência. Viva o Brasil novo! Liberdade abre as asas sobre nós, vitória épica! No dia da posse, quem vem andando pela rua, de gravatinha borboleta, chapéu côco e bengalinha? Um vírus, um micróbio que entra na barriga do nosso líder e mata-o diante da nação esbugalhada. Um micróbio mudou a História nacional. E quem entra no lugar? O bigode flamejante de outro homem, egresso da ditadura que acabava. E os detalhes continuam a nos assolar. Sarney chama um homem de bem, corajoso, para fazer o Plano Cruzado. Só que Dilson Funaro, heróico e messiânico, lutava contra um câncer devastador. Teria Funaro decretado a moratória unilateral para a banca internacional, se não estivesse batido do vento da morte próxima? E depois - a pequena história atacando - teria Sarney impedido as correções de rumo do PLano, se não fossem os interesses das eleições de 86? Como saber?
E - mais tarde - teria Collor sido eleito se não fosse o rancor profundo de Miriam Cordeiro, denunciando Lula (oh, História! Teu nome é mulher...)
E mais melodramático ainda, teria havido o impeachment se Thereza Collor não fosse tão linda, dentes de pérola, pele de maçã, uma doce Sônia Braga dos canaviais? Teria havido impeachment sem o infinito ciúme de Pedro Collor pelo irmão que, dizem, cantou-lhe a mulher? Teria se desencadeado este ódio negro, fratricida que fez o país mudar num dos poucos movimentos de massa ativos que tivemos, o dos caras-pintadas? Aliás, teria havido caras-pintadas sem a série da Globo que Gilberto Braga escreveu antes, Anos Rebeldes? Teria havido? O virtual também é realidade.
E mais: teria o impeachment rolado sem o Eriberto, motorista (lembram-se) que declarou a mais bela frase: E preciso ser mais que patriota? E sem o Fiat Elba, teria havido mudança histórica? Eis a verdade: Collor foi eleito por uma enfermeira e derrubado por um motorista. Quantos detalhes bestas, meu Deus. Lembro-me da fábula de Ray Bradbury que imagina que a vida na terra se modificou toda por um viajante do tempo que, sem querer, pisa numa borboleta pré-histórica, muda a cadeia da evolução e o futuro todo. O Brasil parece isso. Teria Pedro Collor morrido de câncer na cabeça, um ano depois dos médicos examinarem seu cérebro na frente da Imprensa (eu estava lá no auditório do Hotel Macksoud quando ele perguntava ao neurologistas: Eu tô maluco?), se não tivesse comprado esta luta de morte dentro do próprio sangue? E hoje, teríamos FH no poder se Itamar não o idealizasse como um príncipe da sociologia? E o Plano Real não foi quase por água abaixo por uma inconfidência de parabólica do Ricupero conversando em Off com o Carlos Monforte? E se não tivesse entrado o Ciro Gomes, com sua macheza até meio truculenta, mas essencial naquele momento da xotinha de Lilian Ramos e outras borboletas do tempo, que teria havido? Quase que aquele monte de Vênus muda a República. E se o México não tivesse tudo a crise de caixa premonitória, pouco antes da posse de FHC, não teríamos entrado por um cano deslumbrante, em nossa euforia neoliberal inicial? Acasos. Feelings, como cantaria Morris Albert. E qual a relação entre as picaretas na cabeça de Ana Elizabeth, ainda tonta do vinho francês do restaurante, antes de ser enterrada viva, e a busca de moralidade na CPI dos anões do orçamento?
Hoje, vemos que a democracia, como dizia Sérgio Buarque, sempre foi entre nós um mal-entendido. Não só para disfarçar o eterno patrimonialismo mas para ser o picadeiro dos faits divers. Democracia para nós, ainda é a arena delirante para acontecimentos isoldos: índios em chamas, PMs sangrentos e sangrandos, mortes em Caruaru, tudo que é micro sendo sugado para o macro. E vice-versa. Nossas instituições políticas foram montadas cuidadosamente para manter tudo igual, nossa resistência à mudança é tanta que só rolam os acasos e acidentes, mais importantes, às vezes, que os movimentos sísmicos da produção.
Graças a Deus o Estado-papai faliu e a sociedade civil vai ter de se fortalecer para vocalizar seus desejos. O Estado-papai não tem mais grana para avalizar novas ilusões e bancar novos delírios. Ao menos para isso a globalização vai ser útil - vai acabar com a dependência passiva da sociedade. Vai acabar a avaliação estatal das ilusões e lero-leros. Vamos ter de crescer e aparecer, para impedir que a história do Brasil seja mudada por um micróbio ou por uma xotinha voadora.





