O absoluto e seus contrários
Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
É preciso coragem, vivência e capacidade para aceitar as contradições ao afirmar certas coisas, como por exemplo, que a arte não é para os esperançosos, propondo não as virtudes ou vícios que possam causar ao ser-humano, mas sua impossibilidade de adaptação a qualquer tipo de sistema tutelar ou dependente.
Ser artista não é profissão como médico, engenheiro ou bancário, é uma carreira que não depende muito de uma construção com modelos e regras definidas a priori. É como viver ou amar, cada dia é diferente do outro e só o sabemos enquanto estamos mergulhados no ato da criação. O artista não se prende a executar tarefas, aprender técnicas ou conquistar títulos acadêmicos, pois isto é consequência do reconhecimento do seu trabalho, não a causa que move seu desejo de expressão.
Se a arte é incapaz de se tornar instrumento de ideologias, se não se presta a funções doutrinárias e morais, para quê deveria servir, então? Para despertar a consciência de liberdade e igualdade entre os homens, tocando sensibilidades, apontando direções e modos de percepções. Muitos pensam que essa atividade não tem razão de existência dada sua inutilidade no mundo utilitarista que vivemos, mas o artista não é o vagabundo sem serviço, nem a prostituta a correr atrás do dinheiro pelo prazer que tem a ofertar, muito embora se sinta ligado também às condições que essas pessoas vivem, pois o verdadeiro artista não deve temer a realidade. Além disso não é padre, não sofre hierarquias, nem juiz, pois não precisa julgar.
A verdade é que todos querem tirar prazer e proveito daquilo que fazem, mas é na arte que essa questão ganha corpo e alma. Por isso ela se distancia tanto das pessoas que choram emocionadas diante dos dramas de entretenimento na tela de TV, quanto daquelas criaturas duronas, cheias da razão e da verdade, que não vêem necessidade nenhuma em cultivar o espírito, contentando-se em saber o resultado do futebol. Pois não representando mais o antigo conceito do belo-bonito e se negando à propaganda na condição de espelho social - como se fosse ocupação de publicitários arrependidos ou designers de inutensílios -, é ainda a ARTE que toca a essência do ser-humano em tudo aquilo que este tem de verme e anjo, se movimentando através da História, sem ao menos sair de seu próprio lugar.





