A fatia do mercado nacional abocanhada pela Universal/UIP para o lançamento de ‘‘O Grinch’’ é considerável. São 205 cópias, entre dubladas e legendadas. No Paraná, 10 salas estão exibindo o filme a partir de hoje, e segundo a distribuidora, todas com cópias dubladas: quatro em Curitiba, 3 em Londrina e 3 em Maringá (confira a programação na página 4). A partir do dia 15, o público de Cascavel também vê ‘‘O Grinch’’, que inaugura sala de shoping - a propósito, do mesmo grupo exibidor que mantém os cinemas do Catuaí em Londrina.
A estratégia que multiplicou cópias e supervalorizou o circuito interno tem óbvia confiança em retorno certo e opulento, e só pode ser explicada pelo sempre carismático Jim Carrey no papel-título. Sim, porque apesar dos 177 milhões de dólares arrecadados somente até ontem no box office americano, em apenas 3 semanas de exibição, o apelo forte para o público brasileiro é, pelo menos num primeiro momento, a presença do comediante. Já para os espectadores americanos, além de Carrey, a história do Grinch narrada em livro é uma espécie de patrimônio moral-afetivo que há 44 anos vem fazendo a cabeça - leia-se o imaginário - de milhões de admiradores, crianças e adultos.
Por isso, cabe na sinopse o formato clássico. Era uma vez, circundada por muita, muita neve, uma vila chamada Whoville. Os habitantes não tinham outra preocupação a não ser preparar a chegada do Natal. Mas todos os habitantes? Não. Um ser peludo, algo parecido com um abominável homem das neves, vive numa caverna na montanha mais próxima. Lá ele rumina - e ecoa - sua vingança depois do exílio forçado. Sua alegria e passatempo é causar medo aos habitantes de Whoville, ameaçando roubar o bem mais precioso da população, justamente o Natal. Mas uma garotinha, Cindy Lou, vai tentar o que ninguém jamais imaginou: enternecer o coração da criatura. O Grinch parece a princípio seduzido, mas...
Na origem de tudo há um autor cult, Dr. Seuss, na verdade Theodor Seuss Geisel. Este escritor americano nasceu para a fama com um livro com um vocabulário de apenas 250 palavras, ‘‘The Cat in the Hat’’. A partir daí, suas histórias entre o nonsense e o lirismo maravilharam milhões de crianças. E respectivos pais. ‘‘Dr. Seuss’s How the Grinch Stole Christmas’’, também uma short story, foi escrita em 1957. O animador Chuck Jones, entre outros méritos o pai da dupla Bip-Bip & Coiote, realizou em 1966 um desenho de 22 minutos com a história do Grinch. O curta foi considerado de tão boa qualidade pelo Dr. Seuss que ele não mais quis ceder os direitos para uma nova adaptação, apesar do intenso e constante interesse hollywoodiano. Mas depois da morte de Seuss, em 91, a viúva negociou com o produtor Brian Glazer, um dos bem sucedidos magnatas que emergiram na indústria nas duas últimas décadas - entre seus créditos comerciais mais expressivos, ‘‘Apollo 13’’, ‘‘O Professor Aloprado’’ e ‘‘O Mentiroso’’.
Glazer, por sua vez, voltou a contar com o trabalho de uma equipe de peso, encabeçada pelo diretor Ron Howard (‘‘Coccon’’, ‘‘Willow, ‘‘EdTV’’, ‘‘Apollo 13’’). Diretor de fotografia, editores, desenhista de produção, técnicos de som, especialistas em efeitos especiais, desenhista de vestuário - todos vindos de pelo menos um filme de sucesso produzido por Glazer e dirigido por Howard. Sem contar Jim Carrey, peça decisiva no processo de sedução da viúva do Dr. Seuss para a cessão de direitos. Segundo bastidores recentes, ela foi simplesmente atropelada por Carrey na pele do Grinch durante um teste, assinando a papelada imediatamente. E partir daí o ator tomou conta não apenas do personagem mas do filme em seu todo.
‘‘O Grinch’’ é Carrey. E isso não é dizer pouco. Suas feições nunca estão lá, mas Carrey está sempre presente, atrás e através do make-up criado pelo mágico Rick Baker e sua empresa ‘‘Cinovation Studio’’ - mais de 125 maquiagens diferentes, cerca de 8 mil aplicações de látex até o fim das filmagens. Na primeira meia hora, sem Carrey-Grinch, o filme não decola. E quando ele toma conta, ‘‘O Grinch’’ é acometido de uma espécie de loucura inesperada e saudável, ficando em segundo plano a irritante lição edificante, gênero politicamente bem comportado. A partir de sua entrada em cena, o filme se divide claramente em duas partes: cenas com Jim-Grinch, quase surrealistas, e as outras, de uma insipidez e uma previsibilidade absolutas. Difícil estabelecer os limites entre um texto preexistente no roteiro e os vários momentos de improvisação. Jim Carrey compõe um Grinch inesquecível, pouco importando se ele é apresentado a nós pela primeira vez na sala escura. A um só tempo é um clown triste, um esquisito monstro verde, não raro alucinante. Apesar da máscara e de todos aqueles pelos, ele confere ao personagem uma humanidade que chega a emocionar.

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