O abismo da palavra em 'nadja'
Wilson Bueno
De Curitiba
Especial para a Folha2
A Imago acaba de colocar no mercado um livro em todos os sentidos intrigante - o romance Nadja (160 págs., R$ 18,00), do francês André Breton, um clássico do surrealismo, e que já havia dado o ar de sua graça, em 1987, pela editora Guanabara. Tanto lá como aqui temos a oportunidade de usufruir de uma escritura que, vertida ao português pelo sempre poeta Ivo Barroso, parece conservar do original o que este possui de melhor - a graça de uma prosa que se quer puro poema, a cada linha, a cada parágrafo, nos tons e entretons deste texto em abismo.
Experiência radical de linguagem - não pela fratura, como em Joyce, da palavra e de sua estrutura, digamos, física - Nadja, um dos raros produtos literários de uma escola artística que, embora tendo sua gênese entre escritores, pouco ou quase nada produziu no terreno específico da Literatura, detona, pela via da expressão última de sua essência mesma, um dizer que é a pura revolução do dizer até então estabelecido. E aí radicaliza, ainda que aderente a sujeitos e verbos, regências e concordância.
Vindo a lume em 1928, em Paris, quatro anos depois do célebre Manifesto do Surrealismo (1924), Nadja não faz por menos - se quer a expressão radical de uma idéia, fiel aos preceitos de um movimento que se colocou como marco paradigmático da Arte deste século cujas luzes ora assistimos findar.
Herdeiro do nascente freudismo (A Interpretação dos Sonhos, de Sigmund Freud, é de 1899), o surrealismo propunha que a criação humana brotasse diretamente do Inconsciente, sem intermediações, sem censura, retrato fiel da alma, como se a mente humana não fosse o espaço de um vale-tudo arbitrário e atabalhoado. Professando a escrita automática, e toda sorte de automatismos, em busca de um purismo artístico nem sempre convincente, o surrealismo, apesar disso, por sua natureza bélica e não concessiva, acabou produzindo admiráveis obras de arte, sobretudo no terreno das artes visuais - da pintura à escultura, passando pela fotografia e o cinema.
Nas letras, além de Breton, e alguns autores reunidos em torno da revista Littérature, fundada em 1919 pelos adeptos de primeira hora do movimento, é quantitativamente bem pobre a produção dos surrealistas, limitando-se a algumas incursões de Louis Aragon (Um Camponês em Paris, 1926), e de Philippe Soupault (Rosa dos Ventos, 1920). O próprio Apollinaire que batizou a nova onda com a palavra surrealismo - hoje convertida, em muitas línguas, num adjetivo para designar o que ultrapassa o real, - e que operou, diga-se de passagem, profundo corte entre os bem pensantes da época - pouco ou quase nada produziu de expressivo nesta área.
Ficou para André Breton, ideólogo do movimento, e sua maior estrela, não só a ardorosa defesa de seus princípios e palavras de ordem, como a demonstração, digamos, efetiva, de suas leis primeiras, principalmente com este Nadja onde o tráfico com os conteúdos inconscientes se faz, a cada passo, de modo irrestrito, com uma incondicionalidade que é bem a cara de toda neo-escola que se preze, useira e vezeira em tentar provar a excelência de seus paradigmas.
Assim, num andado o mais das vezes soturno, num ritmo entre o sombrio e o melancólico, típico de um severo fim de outono parisiense, o narrador-personagem-autor André Breton, ele mesmo, com todas as letras do nome e os dados concretos de sua biobibliografia, vaga por Paris, nos encontros e desencontros com Nadja. Nunca sabemos onde começa a realidade e termina a ficção; aqui tudo são jogos mentais; o narrador-personagem-autor precisa de Nadja não só para provar que o real é a mera projeção de sua vida sozinha, como também para certificar-se de que nem tudo está perdido - a vida é sonho; o sonho é a própria dimensão experiencial do homem. E aqui, Breton e os surrealistas, ainda que a partir de Freud, discordam dele - se para o mestre vienense a dimensão onírica é apenas o decalque do mundo real, para eles o sonho é a própria experiência da realidade, sua práxis.
Artefato-limite - não nos esqueçamos que Nadja é de 1928 - o romance apóia a sua cambiante narrativa em inúmeras fotos dos locais parisienses, (e não só deles), por onde erra o enredo, constituindo, elas próprias, ao remeterem à estória ou serem por ela remetidas, marcantes momentos do desenrolar da narrativa. Como se o personagem-narrador-autor André Breton se servisse delas para provar que, embora fundadas na razão do real, uma praça ou a fachada de um café-teatro, por exemplo, referidas ambas no espaço onírico da ficção, e portanto transcrições inventadas, são tão reais quanto o sonho de sonhá-las.
Dá para perceber, por estas e por outras, o jogo - umas vezes insensato outras tantas furiosamente convincente - com que a massa ficcional deste impagável Nadja se põe a serviço de si mesma, como se ela, a massa ficcional, fosse a responsável pela inscrição do real na vida, e não o contrário.
Neste universo cerebral-onírico (e isto aí não é uma redundância!), onde confluem dias e noites e onde o sonho se funde à vigília como elemento autônomo, coisificado num ele aterrador, ainda que intensamente poético, move-se o ectoplasma de Nadja - desde o encontro fortuito com o Breton-personagem-autor numa esquina de Paris até a mais agudizada loucura num sanatório em Saint-Anne.
Relevante destacar que com as primeiras críticas ao psiquiatrismo vigente e contra o qual já batia-se uma ainda incipiente psicanálise, Breton-personagem-autor se soma aos esforços desta, opondo-se, em Nadja e na vida, aos métodos medievais da psiquiatria - com seu rol de fármacos, internamentos, eletrochoques e a brutalidade estapafúrdia com que, invasiva, costuma minar, na raiz, todo e qualquer assomo de liberdade. Ciosa, a psiquiatria (ou o psiquiatrismo), ontem como hoje, em nivelar o humano por baixo.
Deste modo, o livro - outra imposição de método - vai, do verso puro, da palavra-música no papel, ao panfleto mais descarado, passando pelo fragmento-piada, pelas citações filosóficas ou as lembranças brejeiras e as propagações amorosas, num mix de colagem e tratado, manifesto e discurso, como é da natureza do sonho sonhado por um surrealista fundante, audazmente de origem.
A lembrança de Hegel, quase ao final do romance, por mais automática que tenha sido a operação transcritora, parece manobrar uma epígrafe espacialmente inversa, no fim em vez de na folha-de-rosto do volume, e que é claramente como se o ideário filosófico do surrealismo - Cada um quer e crê ser melhor do que seu mundo, mas aqueles que são melhores apenas exprimem melhor que outros este mesmo mundo.
Claro, todos os de boa intenção acreditam piamente fazê-lo, mas com o surrealismo e os surrealistas a assertiva adquire estatuto de verdade última, inquestionável, e nisto foram, como todos os empenhados em uma escola, beligerantes, intransigentes, kamikazes, descuidando de enxergar que o mundo não terminava em seus respectivos narizes - antes, era, do Sonho, ali, só o começo.
Mas, por paradoxal que pareça, será a contaminação, este jogo no jogo ilusionista da vida, a aposta maior do autocentrado(?) surrealismo que, se foi infeliz no varejo, acertou em cheio no atacado - proliferando, neste século dúbio, a graça e a garra com que ajudou Freud impor o Inconsciente ao mundo.
Que o diga, ilustre, este admirável Nadja.Livro de André Breton relançado pela editora Imago é, antes de tudo, uma experiência radical de linguagem
ReproduçãoNadja de André Breton (foto) é um dos raros produtos literários do SurrealismoReproduçãoO surrealismo recorre às imagens oníricas e do inconsciente, como demonstram as telas de Salvador Dalí que, ao lado de André Breton, é um dos papas do movimento que marcou o século 20 principalmente no campo das artes visuais





