"O à da Viagem" estréia em SP
São Paulo, 22 (AE) - Em janeiro, o diretor Pedro Pires e os cinco atores da Companhia do Feijão fizeram um viagem de 20 dias pelo sertão do Cariri, na Paraíba, apresentando o espetáculo "Movido a Feijão", cujos personagens eram catadores de lixo das ruas paulistanas. Não desperdiçaram a oportunidade. Cada um registrou num diário as experiências vividas, o que resultou num novo espetáculo, "O à da Viagem", que estréia amanhã (23) no Teatro Cacilda Becker.
Em 1929, o escritor Mário de Andrade realizou viagem semelhante, registrada no livro "O Turista Aprendiz". O texto do espetáculo, criado por Pedro Pires, costura trechos do diário de Andrade com o dos atores. Em cena, uma trupe narra sua viagem pelo Nordeste e recria as cenas vistas ou vividas, algumas poéticas, outras cômicas, dramáticas e até mesmo trágicas.
Andrade e a trupe teatral não só percorreram as mesmas cidades como ocorreram algumas coincidências registradas pelos atores. O escritor passou pela cidade de Seridó, na Paraíba, no dia 19 de janeiro de 1929, onde a trupe também esteve no dia 19 de janeiro. O que mudou na cidade 70 anos depois? "A miséria piorou", constatou Pires. "Na época de Andrade, havia a esperança de as coisas melhorarem a partir da cultura do algodão
um algodão de fibra longa muito valorizado no mercado", comenta. "Porém na década de 50 a praga do bicudo destruiu o algodão do Nordeste".
O diretor ressalta o deslocamento para o Nordeste como uma experiência fundamental na transformação do olhar dos atores sobre o Brasil. "Em São Paulo, a miséria está nas ruas, mas a gente procura não ver, até por um questão de sobrevivência". O distanciamento provocado pela viagem propiciou aos atores uma profunda reflexão sobre o País. Mas longe de levar para o palco um texto panfletário, eles buscaram dividir com o público sua vivência. "O País nunca vai resolver-se enquanto a gente não acabar com a miséria, enquanto a cidadania, com seus direitos e deveres, não for uma realidade para todos os brasileiros".
Entre as experiências vividas e transportadas para o palco está um comício, no qual os coronéis são caracterizados pelo viés do humor. Pelo mesmo viés, eles mostram o conflito de culturas por intermédio da personagem de uma deslumbrada turista paulistana que acha tudo muito bonito e rústico. "Ela pede um copo dágua numa casa, e isso ocorreu com a gente, sem noção de que água ali é ouro". Além de recusar a água suja oferecida, ela tenta convencer a família que não se pode beber daquela água
como se houvesse outra.
Os atores também colocam em cena as filas para as pipas dágua, as procissões, as festas populares e a tragédia das crianças que morrem de fome. No texto escrito para o programa do espetáculo, o professor José Antônio Pasta elogia a "simplicidade e precisão" do espetáculo. "A recorrência aos textos de Mário de Andrade, como mediação e fio condutor, foi um achado feliz: por um lado, deu dimensão histórica à experiência atual, revelando que a modernização do Brasil era e continua sendo excludente e regressiva; e, por outro, evitou a identificação demagógica com os despossuídos, permitindo sustentar com coragem a diferença", comentou Pasta.
Os cenários são criados pelos atores em cena. Malas transformam-se em ônibus e até fachadas de casas, assim como baldes, viram instrumentos de percussão da trilha criada por Walter Garcia, cantada pelo elenco. (B.N.) Serviço - "O à da Viagem". Epopéia tragicômica. Adaptação e direção de Pedro Pires. Com a Companhia do Feijão. Duração de 60 minutos. Amanhã e sábado, às 21 horas; domingo, às 19 horas. R$ 10,00. Teatro Cacilda Becker. Rua Tito, 295, tel. 864-4513. Até 19/9





