Nutrido de inquietação
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de setembro de 2001
Rubens Pileggi Sá<BR>Especial para a Folha 2 
Para quem tem um trabalho regular, que vai todo dia ao emprego realizar seu serviço e cumprir sua função rotineira, o cotidiano acaba se transformando em um fazer repetitivo, tornando o produto do trabalho obra de um gesto mecânico e contínuo e o resto do mundo acaba sendo esquecido da vida. Pagar as contas no final do mês, sustentar família, estas coisas todas não estão nada fáceis de serem resolvidas hoje em dia e é preciso ralar para sobreviver.
Para quem vê de fora, os artistas parecem viver na maior moleza, no bem-bom, se aproveitando dos prazeres que a vida oferece e deixando de lado os problemas de ordem prática do cotidiano. Claro, isto sob um ponto de vista deturpado e generalizado. Nem todos os empregados acham seu trabalho uma chatice e nem os artistas possuem um vidão de glamour e tranquilidade. No mais das vezes, ele é até discriminado por sua opção de vida, uma vez que em nossa sociedade a padronização dos modos de produção e o ufanismo em torno do trabalho tornam quase impossível às pessoas refletirem sobre seu papel e sua função dentro do quadro social. Conformismo e acomodamento acabam se tornando regra geral para quem quer se adaptar à situação imposta neste tempo de alienação em que vivemos.
Bem, mas ao artista, além da luta contra esse acomodamento padronizado, uma luta muito maior acontece dentro de seu próprio ser, levando-o muitas vezes a um buraco sem saída de onde ele simplesmente não tem mais nada a dizer. Geralmente é quando uma fase se esgota e aquelas questões que anteriormente o atormentavam acabam sendo respondidas pela obra realizada. Continuar sobre o mesmo eixo temático seria trair a própria condição criativa que o impulsionou à realização do trabalho. Um grande criador como Leonardo Da Vinci, chegava a abandonar as telas que começava assim que resolvia o problema que o incomodava não queria perder tempo decorando quadros com tinta. Preferia ser fiel à sua máxima de que a arte ''é una cosa mentale''.
Manter-se antenado com o que está acontecendo à nossa volta e, ainda assim construir uma poética que tenha potência suficiente para se estruturar como obra artística, envolve percepções, sensibilidades e estratégias que incluem as crises e o mergulho no vazio, fazendo com que a arte sempre possa ressurgir das cinzas e dos escombros de guerra, tal qual o mito de fênix.
Pensando assim, a crise acaba se tornando um grande motor de desenvolvimento da linguagem, mesmo onde parecia ser impossível uma nova maneira dela apresentar-se. A crise, a dúvida e a inquietação ajudam a gerar novas possibilidades de criação, abrem caminho a grandes conquistas. E tal como muita gente resolveu mudar o rumo de sua existência, procurando sentido para suas vidas, também na arte é possível citar inúmeros exemplos de mudança e transformação, pois é só a partir da vontade e coragem de cada um que é possível mudar nossa maneira de encarar o mundo.
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