NÚPCIAS SOB A CHUVA
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 31 de agosto de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>De Veneza<BR>Especial para a Folha 2 
Pura e feliz coincidência. No mesmo dia em que uma tardia e muito esperada chuva caiu com estrondo sobre boa parte do norte da Itália, Veneza inclusive, o filme que representa a Índia, ''Moonson Wedding'' (''As Bodas das Chuvas de Monção'', título literal mais aproximado), fez a festa de toda uma platéia já abatida não pelo tédio, mas pela recorrente temática de sexo, violência e desesperança que parecia tomar conta desta 58 Mostra Internazionale d'Arte Cinematografica. E amanhã, com o novo Woody Allen passando fora de concurso, o tempo de graça deve durar pelo menos mais algumas horas.
''Monsoon Wedding'' é um filme heterogêneo e sensual sobre um matrimônio em uma família do Punjab. O filme descreve os quatro dias que duram os preparativos dessas bodas: parentes que chegam a Nova Delhi de todas as partes do mundo, desde a Austrália até o Vale do Silício. Juntas, em convivío entre hilário e grave, tradições indianas e cultura global, sob um céu ameaçador que ao final cairá sobre a cabeça de todos. Cinco histórias que se imbricam, indagando sobre o amor. Cinco modos diversos de interpretar as afinidades afetivas, segundo as diferenças culturais, sociais e morais. Um ótimo roteiro dá vida e voz a dezenas de personagens, e apesar da ambientação e da temática precisamente indianas, o que se assiste é uma obra em que não faltam valores universais.
Mas nem tudo é perfeito. A tensão dos preparativos abre espaço à exumação de mágoas, a alguns tormentos e até o confronto com alguns esqueletos (quase) esquecidos no armário: um membro da família abusa de crianças. É o primeiro filme realizado na Índia a falar explicitamente de pedofilia, e uma influência-citaçãoo assumida do dogmático ''Festa em Família'', do dinamarquês Thomas Vinterberg.
Se por um lado ''Monsoon Wedding'' representa um tributo ameno à beleza da cidade de Nova Delhi, por outro e principalmente é uma realização corajosa. A descrição da Índia de hoje não é puramente simbólica. Mira Nair, com breve mas decisiva carreira (''Salaam Bombay'', de 88, ''Mississipi Masala'', de 91 e ''Kama Sutra: A Tale of Love'', de 96), ora analisa a nova sensualidade na Índia, ora a situação delicada de uma mulher solteira vivendo numa sociedade ainda muito marcada pela tradição das castas.
As torrenciais chuvas de monção não simbolizam apenas a fertilidade e a harmonia que afinal encharcam corpo e alma de todos, mas também a catarse, desarmando as tensões e sanando os desvarios.


