Nuno Ramos inaugura mostra no Rio
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terça-feira, 12 de outubro de 1999
Por Antônio Gonçalves Filho 
São Paulo, 13 (AE) - Ainda não é uma retrospectiva, porque o artista tem apenas 39 anos, mas certamente Nuno Ramos vai merecer no futuro uma grande exposição para reavaliar seu trabalho revolucionário, comparável ao de Oiticica nos anos 60. Amanhã (14), às 18 horas, justamente no Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro, Nuno Ramos abre a mais abrangente mostra de sua carreira, iniciada como pintor, em 1983, ao lado dos artistas do grupo Casa 7, de São Paulo.
Os paulistas não precisam ficar com inveja dos cariocas. A exposição, que reúne 17 obras realizadas entre 1987 e este ano
chega ao Museu de Arte Moderna (MAM) em janeiro, marcando o início da parceria do Centro de Arte Hélio Oiticica com o museu paulista. A mostra reúne esculturas, instalações, fotografias e pinturas, entre elas uma inédita, deste ano. Esses quadros em relevo, que chegam a pesar 400 quilos cada um, reúnem materiais tão estranhos entre si como folhas de plantas e resina acrílica, plástico e placas de metal. Sucata - Ao contrário dos escultores John Chamberlain e Richard Stankiewicz, que usavam sucata de automóveis para criticar a sociedade de consumo, essas grandes telas não são comentários anedóticos. A assemblage do filósofo e artista Nuno Ramos tem muito mais o sentido de harmonizar materiais disparatados num território que rejeita a sublimação da pintura. "De uma união de impossíveis, fica à mostra o fazer que os aglutina", observa o crítico Alberto Tassinari, um dos curadores da mostra ao lado do amigo Rodrigo Naves. Ambos acompanham a carreira do artista desde o começo.
"A capacidade de suportar uma dúvida fundamental aparece na relação com os críticos e essa exposição põe em evidência o modo pelo qual eles acompanharam a minha trajetória", diz Ramos, que define essa relação entre artistas e críticos como "fecunda". De fato, críticos como Tassinari e Naves fazem lembrar figuras como Mário Pedrosa, cujo papel como interlocutor de Lygia Clark e Hélio Oiticica foi fundamental na carreira dos dois artistas.
Se Tassinari chama a atenção para a relação contextual entre consciência e matéria na obra de Nuno Ramos - "tudo salta do quadro, mas também nele se afunda"-, Naves destaca outro aspecto dessa obra, o da cegueira provocada pelo excesso de luz. Há, na mostra, uma obra chamada Mácula, apresentada na Bienal de São Paulo em 1994, em que a brancura do sal deveria funcionar como contraponto do breu. O verbo está no condicional porque a instalação vira uma parábola sobre iluminação (a obra adota como referência um conto sobre uma expedição no deserto que provoca a perda da visão pela luz do Sol).
Com tal alegoria, Nuno admite que anda na contramão. Quando o minimalismo parecia ter expurgado todas as metáforas da arte, ele as reincorpora sem pudor. "O texto ampliado em braile que acompanha a instalação não serve para nada, não pode ser lido por aqueles que enxergam e tampouco pelos cegos, porque a linguagem não tem correspondência visual", observa. Imaterial - Nuno queria materializar o imaterializável. Também escritor, ele é fascinado por essa linguagem que resiste a um corpo. "Paulo Pasta, que é um grande leitor, sublima a escrita na tela, mas eu sou muito sugestionável", compara. "Sou do tipo que sai do Museu de História Natural querendo reinventar o mundo animal". Assim, não surpreende a presença na mostra de cinco peças que trazem um salto corajoso do terreno da sublimação. Não mais é possível a distinção entre matéria e consciência.
A cosmogonia de Nuno Ramos é o território do indiferenciado. Tanto que ele pretende criar uma obra em homenagem a Nélson Cavaquinho, em que seus instrumentos deverão emergir de um bloco de areia como os peixes de sua "Craca", a escultura que levou para a Bienal de Veneza. O escultor Amilcar de Castro, que visitou um dia uma exposição de Nuno, disposto a não gostar, saiu dela fascinado. "Ele disse que não via conflito, mas amor nesses quadros", conta o artista. Trabalhando com a dispersão, ele chegou, enfim, à harmonia. "Mesmo assim, ainda acho meu trabalho voluntarioso", critica.


