Nunca houve um tio como o Ricco
Mauro Alice
De São Paulo
Especial para a Folha 2
Nos meados da década de 60 do século XX, eu, com mais de dez anos de montagem de filmes nas costas, estava um dia na sala de edição do estúdio Vera Cruz montando um filme do Walter Hugo Khouri, quando se aproximou correndo um senhor que eu já conhecia. Era ele o representante da Columbia Pictures no Brasil, uma autoridade em mercado da área. Afobado, ansioso ou simplesmente admirado, depressa como correu, ele quis também esclarecer uma verdade extraordinária:
É verdade que você é sobrinho do H. Oliva?
Até achei graça, não sei a que veio a informação do Khouri àquele respeito. Acho que me referi ao meu parentesco com o conhecido e respeitado proprietário de uma cadeia de cinemas em Curitiba e, mais tarde, de uma distribuidora, quando, alguma vez, relatei ao Khouri a facilidade que eu tinha em criança para entrar de graça nos cinemas e, assim, frequentar com mais assiduidade que os outros meninos da minha geração, fato ao qual atribuo, certa ou erradamente, a minha configuração de cineasta, minha forma e amor por narrar, expor fantasias e transfigurar tudo em imagens, imagens em movimento. Cinema. O fato é que o homem se entusiasmava referindo-se ao meu tio Ricco (o nome do irmão da minha mãe era Henrique Oliva, os familiares é que criaram a la italiana o apelido Ricco, abreviação de Enrico); todo feliz por ter privado com uma fabulosa figura, me contou diversos pequenos episódios da sua relação com o meu tio, salivava ao lembrar os pratos da minha tia Marianinha, depois, quando o tom de festival não conseguia segurar um mergulho mais fundo, com ar grave, confessional, me disse algo que eu não imaginava em minha família. Agora que o meu tio foi alvo de homenagens da sociedade de Curitiba, recebendo um espaço público com o seu nome, acho que posso divulgar o relato que o homem me confidenciou.
Ele ainda era novato no escritório da Columbia quando este estúdio começou a enfrentar sérias dificuldades financeiras, por motivo de investimentos de pouco retorno, concorrência acirrada de estúdios mais poderosos e outros fatores da economia. Chegou a um ponto em que até o pagamento dos funcionários dos escritórios brasileiros estava atrasado. O estúdio colocou toda a sua fé numa produção barata, com resquícios de fita de guerra (GG.II), visando a voga latino-americana exacerbada durante o conflito mundial, tendo à frente do elenco um jovem ator muito promissor, outro secundário de êxito recente e uma atriz novata, latina, de forte carga de sensualidade e que prometia efeito certo sobre o grande público. Cercou tudo isto com diretor e técnicos de alto gabarito mantidos no seu plantel. O estúdio acertou em cheio. Começava o estouro nas bilheterias de onde o filme fosse exibido no país de origem, mas, aqui, aquele estúdio seguia em pleno descrédito, o escritório não tinha numerário nem para pagar a legendagem, muito menos para as cópias, divulgação e tudo o mais. O homem corria de porta em porta em busca de crédito. Desesperado foi até Curitiba e contatou, entre outros, aquele certo sr. H. Oliva. A garantia que ele podia oferecer ao exibidor era assegurar-lhe a exibição do tal filme e a certeza de farto movimento no caixa. Conversa foi, conversa veio, o meu tio aceitou a proposta e arregimentou o financiamento necessário para que os favorecidos pudessem fazer as cópias. O filme rendeu uma fábula, a produtora tirou o pé.
O que mais penso quando penso nesta história, não é o inusitado da sorte em que uma firma pequena, estabelecida numa cidade sem maior relevância, pode por si reequilibrar as finanças de importante estabelecimento de uma verdadeira potência econômica. O que me faz pensar é a coragem, a intuição do tio Ricco em jogar às escuras a magnanimidade dos gestos vivos que ele derramava no seio familiar.
Bem, falta explicar que o tal ator secundário era George MacReady, o mocinho do filme era um jovem chamado Glenn Ford e a bela atriz emergente era nada mais nada menos que Rita Hayworth. O título do filme era Gilda, cujo mote publicitário inaugurou uma frase que marcou alguns referenciais da cultura: Nunca houve uma mulher como Gilda!
Mauro Alice é montador de filmes. Atuou mais de 20 anos nos estúdios da Vera Cruz. Entre outros, trabalhou nos filmes A Grande Noitada; Coração Iluminado, de Hector Babenco; e Até que a Vida nos Separe, de José Zaragoza.





