A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pela Câmara Brasileira do Livro, aponta que 53% dos brasileiros não leram nenhum livro em 2024. O dado representa uma redução de aproximadamente 6,7 milhões de leitores em relação à edição anterior, de 2019.

A principal justificativa é a falta de tempo em uma rotina cada vez mais acelerada. Segundo levantamento do Instituto Locomotiva, 65% da população afirma não ter tempo livre durante a semana. Entre aqueles que têm algum momento de ócio, a maioria o dedica às redes sociais (79%), enquanto apenas 15% escolhem a leitura.

Não por acaso, o País frequentemente fica no fim da fila e ocupa a 59ª posição dentre 70 países em rankings internacionais como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) e o PIRLS (Estudo Internacional de Progresso em Leitura, sendo que apenas um em cada quatro brasileiros domina plenamente as habilidades de leitura. Uma criança que tem uma família que lê para ela, chega aos 5 anos de idade com 6 mil palavras a mais que aquela que não tem.

Do ponto de vista da educadora, professora contadora de história da Escola Municipal Norman Prochet, em Londrina, Aliny Perrota, o resultado da pesquisa acende um alerta importante. "Mais do que números, eles escancaram um enfraquecimento do vínculo entre as pessoas e a leitura, vínculo que, historicamente, começa a ser construído na infância. Segundo os dados da pesquisa, a escola também vem perdendo força como espaço formador do hábito leitor. É preciso olhar com ainda mais atenção para práticas sensíveis e fundantes, como a contação de histórias", expõe.

ETAPAS ESSENCIAS

Perrota compreende que a contação de histórias ocupa um lugar essencial na formação das crianças. "As histórias contadas são pontes simbólicas: despertam a curiosidade, alimentam a imaginação e criam vínculos afetivos com a palavra. Antes mesmo de saber ler, a criança que escuta histórias aprende a ouvir, a interpretar, a antecipar sentidos, a se encantar com a linguagem. Esse contato precoce com narrativas bem construídas amplia o repertório linguístico e coloca a criança em diálogo com uma linguagem mais elaborada e expressiva, o que facilita, posteriormente, o processo de leitura autônoma", destaca.

Imagem ilustrativa da imagem Número de leitores cai no Brasil e desafia educadores
| Foto: Divulgação

Com propriedade, a educadora explica que ouvir histórias é uma experiência social e emocional. "Ao escutar um conto, a criança se reconhece, se projeta, aprende sobre si e sobre o outro. Esse envolvimento afetivo é decisivo: ninguém se torna leitor apenas por obrigação, mas por desejo. E o desejo nasce, muitas vezes, no colo, na roda, no momento em que alguém dedica tempo para contar uma história", esclarece.

"Em um cenário em que a falta de tempo aparece como a principal justificativa para a não leitura, a contação de histórias se mostra ainda mais potente: ela cabe nos pequenos intervalos do cotidiano, resiste à pressa e reafirma que formar leitores é, antes de tudo, criar experiências significativas com a palavra. Investir na contação de histórias na infância é apostar no futuro da leitura no país — não como um hábito imposto, mas como uma prática viva, afetiva e necessária", defende.

O escritor e poeta Eduardo Baccarin-Costa considera os dados da pesquisa impactantes. "Muito triste constatar que a população está lendo menos, mas infelizmente não é uma surpresa, porque a pandemia, a disseminação de internet, de jogo, aulas on-line, disseminação de plataforma de leitura e, principalmente a falta de política pública pra estimular a leitura nesse país", desabafa.

Como professor, Baccarin é um incentivador da leitura. Por meio do projeto Casulo Criativo, estimula o hábito de ler. Professor do ensino médio da rede estadual de ensino, considera que é um desafio propor a leitura, mas os alunos gostam e se desenvolvem com o incentivo. "Tenho um pé atrás com e-book porque o jovem e o adolescente não fica muito tempo no livro eletrônico, acaba indo para outras plataformas, diferentemente de um livro impresso", aponta.

PRÁTICAS QUE INSPIRAM

A escritora Maria Angélica Constantino integra o grupo de leitura Café com Livro. A formação nasceu em 26 de julho de 2015 do encontro de amigas que sentiram a necessidade de, além de compartilhar leituras, dividir a vida, os afetos e as experiências.

Formado em 2025, o grupo de leitura Café com Livro escolhe os títulos por votação: amizade e amor pela leitura
Formado em 2025, o grupo de leitura Café com Livro escolhe os títulos por votação: amizade e amor pela leitura | Foto: Divulgação

Constantino explica que ao longo do tempo, novas mulheres foram chegando por convite de quem já estava. "Os livros continuam sendo nosso elo, mas hoje o que nos une transcende as páginas e se transforma em laço, presença e história compartilhada", conta.

Com uma rotina cercada de responsabilidades, encontra tempo para a leitura. "Sou sócia da Editora Engenho das Letras, atuo como vice-presidente da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina e, entre tantas funções, sou também síndica do meu condomínio, porque a vida real acontece no coletivo e na prática cotidiana", divide.

A escritora revela que foi atravessada pela leitura ainda criança, na periferia de Londrina, onde minha jornada com a escrita começou de forma literal e simbólica. "Aprendi a escrever com um caco de tijolo. Antes da caneta, a urgência da palavra", recorda.

Ela conta que os encontros reúnem, em média, quinze pessoas. "Cada livro se torna ponto de partida para conversas que atravessam histórias, sentimentos e vivências, fazendo da leitura um pretexto para o encontro," afirma.

O maior desafio para manter o grupo na ativa, segundo Constantino, é encontrar datas que acolham as diferentes rotinas, mas o desejo de estar juntas sempre fala mais alto. "Ao final de cada reunião, indicamos novas leituras e escolhemos, por votação, o próximo livro, num movimento coletivo que reafirma nosso vínculo e a construção compartilhada desse espaço", expõe. "Não é fácil, tivemos vários momentos que achei que o grupo fosse morrer, mas aí sempre encontramos um jeito de se reinventar", acrescenta.

Enquanto muitos dizem que não têm tempo, a escritora ratifica que não é preciso ser acadêmico para ler ou escrever. A educação, de seu entendimento, transforma vidas e realidades sociais, e a literatura é uma das ferramentas mais democráticas de aprendizagem. "Cresci frequentando a biblioteca da minha escola na zona leste e encontrei abrigo, horizonte e pertencimento na Biblioteca Pública de Londrina. Foi ali, entre estantes e silêncios, que aprendi que o livro não é fuga, é caminho", reflete.

ESTUDANTE CONTRARIA PESQUISA

A estudante Heloysa Pinheiro, 19 anos, está no 2° ano da graduação de matemática licenciatura na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Em 2025, leu 12 livros e está produzindo sua primeira obra "Endultecendo", um livro de poesias que retrata momentos de 2024 e poemas de anos anteriores e frases. "Sim. Eu sou uma artista que cursa exatas", diverte-se.

A estudante de matemática Heloysa Pinheiro leu 12 livros no ano passado
A estudante de matemática Heloysa Pinheiro leu 12 livros no ano passado | Foto: Arquivo pessoal

Pinheiro recorda que aprendeu cedo a ler e escrever e, os quatro anos, já conseguia escrever seu nome praticamente sozinha, sendo que seu primeiro contato veio com almanaques, gibis, histórias de contos de fadas.

"Lembro até que quando começaram a introduzir livros sem figuras, eu ainda achava muito interessante enquanto ouvia outros colegas - `não é legal, não tem imagem´. Não que eu talvez não preferisse os que tivessem desenhos, mas criei uma atração por eles, uma necessidade de descobrir o que aquele livros de `gente grande´ tinham para ser descobertos", recorda.

Em um de seus aniversários, Pinheiro ganhou da madrinha "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry e amou o livro. "Não cheguei a ler ele inteiro sozinha de primeira, mas minha professora do 3° ano lia todos os dias um capítulo. "Anos depois, o li inteiro, e é um dos meus favoritos até hoje".

A estudante narra que foi entre os 13 e 14 anos, em meio à pandemia, que seu verdadeiro amor pela literatura veio com força. "Começou a aparecer no meu Tik Tok conteúdos sobre livros, nesse meio tempo também estava me descobrindo bissexual e a literatura dos livros LGBT+ também me ajudou bastante. Dali pra frente eu comecei a ler de tudo, meu gênero favorito ainda é romance (principalmente os sáficos), mas amo fantasia (li todos os Harry Potter), vez ou outra li alguns quadrinhos da DC e da Marvel, e mais um monte de livros dos mais diferentes tópicos".

A jovem considera que a leitura mudou sua vida e declara-se: "Livros foram, são e provavelmente sempre serão meu refúgio e deveriam ser, não um presente opcional, mas um incentivo de um ser humano para o outro. Acredito que a leitura edifica o cérebro, dignifica o homem, trazendo cultura e informação, além disso, também nos arma contra a bestialidade do mundo. Ler salva vidas, dar livros é curar, remediar, o coração e a alma do ser como um todo", sustenta.

Editora aponta estratégias para criar hábito

A Editora Literare Books International apresenta cinco estratégias simples para ler mais, com prazer, e considera que poucas sensações são tão prazerosas quanto descobrir livros que provocam reflexões, ampliam repertórios e despertam conversas relevantes sobre o mundo contemporâneo.

- Encare a leitura como prazer, não obrigação.

- Estabeleça metas reais e reserve pequenos momentos do dia, pois alguns minutos já são suficientes para criar constância.

- Substitua o excesso de telas por páginas

- Trocar parte do tempo nas redes sociais por um bom livro pode ser um exercício transformador.

- A leitura oferece profundidade em contraste com o consumo acelerado de conteúdo digital.

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