Nudez controlada
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terça-feira, 26 de novembro de 1996
Ana Lúcia do Vale 
Os voyeurs já podem começar a contagem regressiva. Está marcado para ir ao ar nesta sexta-feira o capítulo em que Taís Araújo, a protagonista da novela Xica da Silva, aparece como veio ao mundo tomando um generoso banho de cachoeira. O burburinho em torno da nudez da atriz fica por conta da idade de Taís. Ontem, ela completou 18 anos e atingiu, assim, a maioridade. Ou seja, saiu da alçada do Juizado de Menores. Agora, a moça só precisa da autorização dos pais para as cenas mais calientes. Estou nervosa. Mas confio no bom gosto do Avancini, desabafa Taís.
Segundo o diretor geral da novela, Walter Avancini, a cena vai se passar em flash-back, quando o Contratador João Fernandes, vivido por Victor Wagner, relembra a primeira vez em que viu a escrava numa cachoeira. A Xica é uma personagem que representa a liberdade feminina. Não podemos trabalhar tendo preconceito em relação ao corpo humano, despista Avancini.
Apesar da retórica do diretor, o constante naturalismo das atrizes em Xica da Silva vem confirmando uma tática já empregada por Avancini em Tocaia Grande, só que com muito mais retorno. O índice de audiência de Xica da Silva tem batido os 10 pontos em São Paulo e uma média de 12 no Rio de Janeiro, o que significa quase três vezes a audiência da antecessora.
Usar sensualidade para aumentar a audiência não é novidade. A minissérie Engraçadinha, seus amores e seus pecados entrou para a memória da tevê por cenas antológicas de nudez. Quem não se lembra de Alexandre Borges e Cláudia Raia rolando pelados na lama? Ou dos strip-teases de Mylla Christie como a fogosa Cilene?
Mas quem ficou conhecida mesmo foi Alessandra Negrini. A intérprete da Engraçadinha jovem apareceu logo no primeiro capítulo de peito aberto. Só que esse papel tinha sido reservado a outra atriz. Georgiana Góes, que tinha na época os mesmos 17 anos de Taís, foi proibida pelo Juizado de Menores de fazer a obra de Nelson Rodrigues. Ia usar dublê nas cenas de nudez. Mas o Juizado achou impróprio uma menor no papel. Foi frustrante, desabafa Georgiana.
Muitas emissoras, na má-fé, veiculam imagens fortes com menores sem o alvará, acredita a titular da 3ª Promotoria da Infância e da Juventude da Capital, Kátia Maciel. A promotora explica que o Estatuto da Criança e do Adolescente dita que trabalhos que envolvam menores devem ter autorização da Justiça da Infância e da Juventude.
O autor Antônio Calmon sabe bem as dificuldades de escrever para menores. Ele é autor de Sex Appeal e Vamp. Havia o controle da emissora e do Juizado. Por isso nessas histórias só tinha aventura, assegura.
A atriz Déborah Secco, de 16 anos, também conhece os tortuosos caminhos da burocracia. Na pele da beijoqueira Karina, em A Próxima Vítima, ou a Tatu, de Vira-lata, teve de preencher as formalidades para trabalhar, como entregar todo mês documentos tipo atestato médico para o Juizado. Mesmo assim, ela vê vantagens em ser menor. Tenho direito a levar acompanhante em viagem de trabalho. Depois dos 18, isso acaba, explica.
Já Núbia de Oliveira não aguentou ficar sob a tutela paterna e mal fez 17 anos pediu para ser emancipada. Precisava viajar para fazer fotos e não aguentava depender de autorização, justifica. Mas um dos trabalhos mais picantes da modelo veio com os atuais 22 anos. Em Tocaia Grande, Núbia deixou os espectadores babando ao entrar na trama nua em pêlo, montada num cavalo branco. Não estava nua. Eu usava tapa-sexo, corrige.
Mesmo que só gravem as cenas com menores e não as exibam, as emissoras precisam do tal alvará do Juizado. Caso contrário, podem ser multadas em ínfimos 20 salários mínimos, que aumentam se a emissora for reincidente. Por saber bem as regras desse jogo, Avancini garante que as cenas da nudez de Taís ainda vão ser complementadas. Apesar do tal banho de cachoeira já ter ido ao ar. Só que numa versão com cortes.
Livre, leve e solto Cenas de nudez merecem tratamento especial. Devem ser resolvidas poeticamente. Se caem na mão de diretor vagabundo, ficam sinistras, garante o autor Walter George Durst, que assinou Tocaia Grande e escreveu a primeira cena de nu de novela, em Gabriela, exibida em 75. Protagonizada pelos atores Pedro Paulo Rangel e Cidinha Milan, a cena mostrava os dois correndo pelados na chuva para fugirem da ira de um Coronel. A diferença é que, naquele tempo, a gente consultava os atores para ver se eles topavam fazer a cena, compara Walter Durst.
Já em Tocaia, Walter Durst garante que teve de escrever cenas especiais de nu por causa de uma pesquisa de audiência. Constataram que grande parte do público era masculino, assegura. Aproveitando a contratação da modelo Núbia de Oliveira, o autor fez uma entrada especial para a moça. A modelo entrou na trama como uma das meninas do Castelo, nua num cavalo branco.
A Núbia foi contratada para aparecer na especialidade dela. Bolei uma situação para ela ficar bonita sem pornografia, justifica Walter Durst, que também é responsável pela adaptação da próxima novela do SBT, Os Ossos do Barão. Apesar de ser uma trama de época, o autor avisa: Se a história exigir, vai ter cena de nu.
Fora-da-lei O Estatuto da Criança e do Adolescente, constante na lei 8069/90, é claro e rege os direitos e deveres da faixa etária de zero a 18 anos. Os programas, propagandas, concursos de beleza e até peças de teatro onde participam menores de idade, terão de ter um alvará, ou seja, uma autorização da Justiça da Infância e da Juventude.
Uma das novelas que mais deu problema foi Malhação, atesta a titular da 3ª Promotoria da Infância e da Juventude da Capital, Kátia Regina Maciel. Segundo a promotora, quando ela leu o script de determinada cena do folhetim, não constavam palavrões. Mas quando foi exibida, a mesma cena estava recheada de impropérios. Pedi a apreensão da fita do capítulo para servir de prova e entrei com uma representação contra a Globo, pedindo que fosse multada, conta a promotora.


