Wilmar KleinNovos poemas em esboço
Enquanto nesta cidade proliferarem tantos poetas ruins, juro que não terei pudor de, vez ou outra, mostrar minhas débeis tentativas de fazer versos. Vão aqui umas poucas, meio ‘‘góticas’’, meio ‘‘depr꒒. Deve ser por influência de coisas estranhas que ouço em dias cinzentos.
I
Ela, o meu demônio da guarda, move-me
a buscar o grito nas raízes do espelho,
quebrar a noz das palavras,
levar à fala a hóstia das trevas,
semear a pestilência do verbo,
escrever com relâmpagos.
(o meu anjo turbulento,
o meu demônio da guarda,
canta como quem blasfema
entre sepulcros e papoulas.)
•
o meu anjo turvo,
no silêncio de mim,
qual um réptil
imóvel no âmago da névoa.
•
II
Quando a presunçosa razão adormece,
somos, frágeis animais, a presa dos medos da noite,
que oculta na espessura das brumas o furtivo passo do lobo
e, sob um luar sobrenatural, desvela a dança dos fogos-fátuos.
•
Nesta noite, vagueia por estradas sem rumo uma procissão de espectros,
E num lúgubre bosque ouvem-se os lamentos de deuses imemoriais,
Sedentos de sangue.
•
Nesta noite, a morte, levada pelo vento, exala o seu cheiro de jasmim,
e o canto de um pássaro negro, sinistro,
invade tristes sepulturas,
a convocar os mortos esquecidos.
•
Nesta noite, um anjo sem nome
semeia no solo dos sonhos grãos de loucura e pânico,
e ele, confiante em sua colheita, cultivará os nossos pesadelos.
III
Fragmentos
Cata-ventos engendram o crepúsculo.
Som de zinco sendo moído num realejo de vidro.
•
violoncelos e outono,
podridão e lilás
•
vinheta fúnebre para oboé e estática
•
P.S. : Uma vez, há muitos anos, entrevistei o Mazza (Luiz Geraldo) para a extinta revista ‘‘Quem’’. Na ocasião, mostrou-me uns poemas despretensiosos que escrevia. Sempre achei que devia publicá-los. Agora que ele foi eleito para essa honrosa inutilidade que é a Academia Paranaense de Letras (onde, pelo menos, será um autor útil), bem que poderia fazê-lo. O Mazza, no fundo, é uma hárpia com garras de açúcar-cande. É por isso que gosto dele.

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