Novos horizontes
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de outubro de 2013
Anna Bittencourt<br> TV Press 
Aos 40 anos de carreira, Marcos Caruso ainda se depara com novas experiências em sua trajetória. No ar em "Joia Rara" como o visionário Arlindo, dono do cabaré Pacheco Leão, o ator é dono de uma lista de variados papéis no teatro. Na tevê, no entanto, era rotulado pelos tipos submissos que interpretou em novelas como "Mulheres Apaixonadas", "Páginas da Vida" e "Tempos Modernos". "Eu era sempre o marido banana, o cara que não transava, o desempregado, o filho amoroso...", relembra, aos risos.
O momento de "virada" veio em "Cordel Encantado", quando interpretou o cômico Patácio. Essa mudança de estereótipo reverberou nos personagens seguintes: o popular Leleco, de "Avenida Brasil", e agora o exagerado Arlindo, da atual novela das seis. "É incrível que a tevê só tenha descoberto meu lado humorístico depois de 35 anos", graceja.
Dramaturgo reconhecido e também diretor de peças teatrais, Caruso começou sua carreira na tevê aos 26 anos em "Aritana", novela exibida em 1978 pela extinta Rede Tupi. Depois disso, em 1981, assinou sua primeira produção na tevê, ao lado de Geraldo Vietri. O seriado "Casa de Irene", veiculado pela Band, foi o início dos trabalhos de Caruso, que alcançaram, além da tevê, o teatro e o cinema.
Para ele, as funções de ator, diretor e autor caminham juntas e seria impossível separá-las. "Sou um cidadão profissional. Escrevo e interpreto pela necessidade de tratar de certos assuntos", justifica.
O cabaré Pacheco Leão é o único núcleo da novela que trabalha o humor. Como é ter todo o peso da comicidade em cima de uma só trama?
O curioso é que meu personagem não é cômico. As situações e o ambiente em que ele está inserido é que são. No cabaré, é tudo muito alegre, para cima. E também tem a questão interessante dele com a esposa, Miquelina (interpretada por Rosi Campos), que é muito familiar do público. Ela morre de ciúme porque ele vive rodeado pelas vedetes. E é um homem muito carismático, as mulheres ficam loucas por ele. E também tem a sogra, a Dona Santinha (de Nicette Bruno), que vive tentando abrir os olhos da filha para as possíveis investidas do marido. A princípio, ele é um cara fiel, mas se vai resistir à tentação, só com o decorrer da novela (risos). Essa situação cria um bom humor.
Apesar disso, Arlindo é extremamente angustiado...
Ele é um gênio. Entende de tudo, é coreógrafo, músico, diretor, cenógrafo, figurinista, maquiador, empresário... Todo gênio tem essa angústia. Na primeira fase da novela, ele era angustiado porque o cabaré estava indo à falência. Tinha muitas ideias, vitalidade, mas não tinha dinheiro para colocar os planos em prática. Com a passagem de tempo, ele recebe uma fortuna e vira um "pinto no lixo", se esbalda fazendo coisas inimagináveis. Isso deveria tirar a angústia dele, mas só piora. Quanto mais dinheiro ele tem, mais vê que pode criar coisas. E fica ansioso e angustiado para executar tudo o que planejou. Esse, inclusive, é um outro lado que explora as situações do humor.
Qual foi sua maior inspiração na hora de compor o personagem?
Não fiz laboratório para compreendê-lo, mas peguei minha experiência de "vítima" dos diretores. E, com isso, fui impregnando o Arlindo com um pouco da loucura e genialidade de cada um. A inspiração é colocar para fora tudo que aprendi em 40 anos de profissão.
Na carreira televisiva, você fez muitos papéis mais submissos. Chegou temer ficar rotulado por algum personagem?
A tevê tem esse problema de rotular as pessoas. Mas não cheguei a ter medo de ficar marcado. Acho que também isso pode variar para cada ator. Apesar de ter feito personagens parecidos, eu não me engessei. Continuei na tentativa de buscar outros tipos e também atuando em diversos cenários no teatro. E quando optam pela falta de obviedade, todo mundo sai ganhando. Hoje, posso garantir que ampliei meu leque de possibilidade. Eu não tenho muita opção para me descaracterizar porque já sou careca. Mas arrumo um jeito (risos). Tanto que, se colocar o pai da Nanda (de Fernanda Vasconcellos), em "Páginas da Vida", ao lado do Leleco de "Avenida Brasil" e do padre Inácio de "Desejo Proibido", eles são completamente diferentes. Fisicamente e na forma de interpretar.


