Leveza nos gestos, perfeição nos passos. Refinamento de uma técnica única da qual tantas outras danças derivaram. O balé é um clássico irretocável com um perfil consolidado ao longo de 500 anos de história. Seu aprendizado continua tendo como essência a paixão, herdada por cada um que segue seus movimentos.
Em Londrina, o ensino da dança clássica passou por uma crise a partir dos anos 90 e precisou buscar alternativas para sobreviver. É só olhar em volta para se perguntar - onde foram parar as academias que ensinavam esse estilo de dança na cidade? Onde estão as escolas que perpetuavam uma das manifestações artísticas que mais encantam olhares hoje e sempre? A maioria migrou para escolas regulares e até para clubes, um fenômeno de sobrevivência no mercado e de adaptação à vida corrida dos pais dos alunos.
Yeda Marques Russo, dona da uma das mais conhecidas e antigas academias da cidade, o Centro de Dança e Artes Adanac, tem uma explicação. Depois de 38 anos mantendo uma sede própria no Centro, ela encerrou as atividades e se transferiu no começo deste ano para o Colégio Marista, com uma nova proposta. ''Eles me ofereceram duas salas, com espelhos e aparelhos de som, além de camarim e secretária. É uma estrutura completa e não preciso me preocupar com segurança''. Ela mantém a mesma média de alunos, dos quais 80% são de outros colégios. ''Imaginei que o número fosse aumentar esse ano mas vejo que ainda tenho que mostrar que meu trabalho é diferente, não visa nem escravizar nem profissionalizar'', reflete a professora.
Em grande parte das escolas particulares, incluindo as de educação infantil, a estrutura de uma academia de balé ou apenas as aulas com bailarinos profissionais já fazem parte da oferta de cursos extra-curriculares. ''Hoje em dia, os pais não podem acompanhar os filhos no meio da tarde para uma aula de dança. A maioria das mães trabalha fora. Na escola, o balé entra como aula complementar'', aponta Yeda.
Outra alternativa foi adotada pela bailarina Tatiana Pimenta Delaroza, que há 13 anos montou a própria academia, a Gestos Ballet. Há cinco anos, ela saiu de um imóvel da Rua Maringá e locou instalações dentro do Clube Canadá. ''O espaço é maior, com estacionamento e segurança. É mais cômodo para os pais e as aulas estão abertas para toda comunidade, não apenas para os sócios do clube'', explica.
Tatiana tem alunos a partir dos três anos de idade. Para essa faixa etária o curso é chamado baby class ou dança criativa. ''Trabalhamos a parte lúdica da criança, colocamos fantasias de fadas, de princesas''. A partir dos 7 anos, a academia oferece a iniciação ao balé e daí em diante o ensino se aprimora. Também há turmas para adultos. ''Essas aulas são lotadas. São médicas, dentistas, advogadas, que sempre tiveram vontade de aprender balé e detestam outras atividades físicas, como musculação''. No site da escola, mais uma prova da eterna paixão compartilhada por muitos. Na enquete sobre qual dança o internauta mais gosta, o balé clássico aparece como líder isolado da disputa com 44,9% dos votos.
Os modelos atuais do ensino do balé clássico também podem ser explicados por uma mudança de visão em relação à própria arte. ''Na sociedade de hoje, as famílias querem dar formação ligada à renda. A arte é vista como algo marginal''. É a opinião de Leonardo Ramos, diretor da Companhia Ballet de Londrina e da Escola Municipal de Dança, que este ano completaram 15 anos.
Ele mesmo já foi proprietário de uma academia na cidade e lembra que em Londrina ''nunca passamos de umas cinco ou seis escolas grandes. Maringá, por exemplo, sempre teve um número bem maior e com mais alunos''.
O ''sumiço'' das academias começou justamente na década passada. ''Não se relaciona mais o balé com o ideal das mães de classe média dos anos 70, que achavam que as aulas serviriam para melhorar a postura das filhas, a etiqueta e até problemas ortopédicos nas pernas e pés'', compara Leonardo. Mesmo diante da perda de espaço para outras atividades físicas e até para o ensino de idiomas e informática, o diretor do Ballet de Londrina não lamenta: ''Balé tem a ver com vocação. Não vejo esse enxugamento das escolas de dança como algo ruim. Quem tem talento está trabalhando. E o ensino deve se voltar para essa vocação. É bem melhor que uma tonelada de gente fazendo aula sem sentido nas academias. Temos que entender dança como profissão''.
Yeda tem outra versão: ''O balé serve para a criança se conhecer melhor fisicamente; ou ainda para aumentar a sensibilidade musical e para as artes em geral. Não é preciso ser profissional, mas que esse aluno possa ser público, que diante de um espetáculo entenda o que está vendo. Para os pais, as apresentações também contribuem para mudar comportamentos. Não se pode comer pipoca ou jogar papelzinho no palco dentro de um teatro''.

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