''Debulhar o trigo / Recolher cada bago do trigo / Forjar no trigo o milagre do pão / E se fartar de pão...''. Uma das músicas que mais belamente conseguiram retratar a importância da terra, ''Cio da Terra'', composta por Milton Nascimento e Chico Buarque, deixa claro que no campo tudo é processo, transformação. Para se chegar no pão, há que se labutar no trigo. É preciso que a semente morra para que trigo brote e dê muitos frutos. E foi pensando na importância de se valorizar o trabalho agrícola que os assentados da Cooperativa de Produção Agropecuária Vitória Ltda (Copavi), em Paranacity (a 66 quilômetros ao norte de Maringá), desde 1991 se dedicam a investir na formação da identidade das crianças que moram no assentamento hoje há 25 crianças de 5 a 12 anos.
Chamadas de ''aulinhas'', pelas próprias crianças, as reuniões acontecem três vezes por semana, durante três horas, com atividades teóricas e práticas envolvendo o dia-a-dia da cooperativa. A história dos movimentos sociais e a luta pela terra também fazem parte do aprendizado. ''Trabalhamos para que elas conheçam a própria história e valorizem a sua origem, que faz parte da sua identidade'', explica a pedagoga Elaine Aparecida Lopes, 28 anos, uma das responsáveis pelo planejamento pedagógico. Como as crianças estudam no município de Paranacity, acabam convivendo com a realidade social de outras crianças e o fascínio pelas encantos urbanos também é uma preocupação do trabalho feito no assentamento.
O aluno de pedagogia, Alex Verdério, 23 anos, foi um dos primeiros monitores e lembra que as crianças da cidade também vinham ao assentamento para participar das ''aulinhas''. ''Elas gostavam muito e vinham prontas, com caderno, lápis, como se estivessem indo à uma aula da escola formal'', disse.
''Com o nosso trabalho, conquistamos o respeito da comunidade e ficou no passado o tempo em que nossas crianças eram chamadas de 'sem-terrinha' ou '
gaúchinhos', de forma pejorativa'', acrescentou.
A cooperativa é modelo de produtividade e eficiência dentro dos assentamentos vinculados ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). A ocupação da antiga Fazenda Santa Maria, que foi desapropriada pelo Incra, ocorreu em 19 de janeiro de 1993; em 10 de julho do mesmo ano as famílias fundaram a cooperativa. As decisões são tomadas através de assembléias e a remuneração dos cooperados é feita por horas trabalhadas, baseada no lucro de cada mês. Em média, cada família tem renda mensal de R$ 700,00. A produção de carnes de frango e porco também garante o consumo interno desses produtos sem custos para os cooperados. Ao todo, são 21 famílias que trabalham coletivamente nos 98 alqueires de terra, que beneficiam 89 pessoas.
Dentro de um padrão agroindustrial, as crianças aprendem nas ''aulinhas'' o funcionamento da cooperativa. Para aquelas que nasceram no assentamento, pode parecer difícil imaginar o processo de transformação que o terreno empobrecido devido ao plantio excessivo de cana teve que passar desde o início da ocupação, quando cerca de 800 homens foram necessários para capinar o canavial. Hoje, as vacas leiteiras que ocupam o terreno garantem a produção diária de quase 400 litros pasteurizados por mês que são distribuídos na região.
As casas simples, mas de material, também escondem os muitos dias em que as famílias tiveram que morar em barracos de lona, até que a cooperativa conseguisse se organizar para a construção de moradias melhores.
A parte preservada de cana-de-açúcar é responsável pela produção de 15 toneladas de açúcar mascavo e seis mil litros de cachaça artesanal, hoje exportada para a Espanha. Também há uma grande produção de verduras orgânicas e dentro das lições diárias está o aprendizado de que é preciso lidar de forma inteligente com as ervas daninhas e insetos, que podem ser afastados por um pé de cravo amarelo, chamado popularmente de ''cravo-de-defunto''. A mistura de palha de cana ao estrume dos porcos também esconde um segredo: as moscas não encontram o meio ideal para a sua reprodução, e, assim, naturalmente, o chiqueiro fica sem moscas.
A bananinha desidratada também era um quitute famoso produzido na cooperativa, mas uma praga recente nos bananais interrompeu a produção, que deverá ser retomada com o plantio de uma variedade mais resistente de bananeira. Os pães, vendidos no mercado regional, também são outra marca registrada do trabalho desenvolvido em cooperativa.
Conversando com as crianças, elas falam que gostam de morar na fazenda e que que querem continuar lá depois que crescerem. Comentam que gostam do contato com a natureza e não se sentem ''diferentes'' em relação às crianças da cidade. Um dos temas que estão estudando atualmente é a história do Che Guevara. E quem foi Che Guevara?, pergunto. ''Ainda não sabemos muito porque começamos a estudar agora, mas ele foi um médico e revolucionário, que lutava pelas mesmas coisas que nós lutamos'', comentou Éder Calza, de 9 anos.
Incentivados a agir em coletividade, estão acostumados a fazer atividades em grupo e sempre requerem dos monitores essa forma de organização. Também é comum virem os pais participarem de reuniões, assembléias, para tomarem em conjunto as decisões. ''Nas escolas, as professoras se surpreendem com a organização das nossas crianças em atividades coletivas. Isso faz parte da referência delas'', destacou Elaine.

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