Depois de apresentar no Festival Internacional de Londrina (Filo) os espetáculos ‘‘Aiguardent’’, uma das boas surpresas do evento, e ‘‘Blanc d’Ombra’’, a companhia de Marta Carrasco, da Espanha, leva para o palco do Cine-Teatro Ouro Verde a montagem ‘‘Mira’m’’ (Se Dicen Tantas Cosas), concebida e dirigida pela bailarina e coreógrafa. A única apresentação será hoje, às 20h30.
Enquanto ‘‘Aiguardent’’ e ‘‘Blanc d’Ombra’’ são coreografias concebidas para um intérprete (a própria Marta), ‘‘Mira’m’’ é um trabalho coletivo, no qual a dança e o teatro fundem suas linguagens. Marta Carrasco salienta que é um trabalho de intérpretes (três atores e dois bailarinos) sem diferenças ou divisões. ‘‘Não vejo como intérpretes podem dividir o corpo em dois. É necessário criar uma linguagem integral que use o corpo’’, comenta a coreógrafa.
Em ‘‘Mira’m’’ (uma referência ao olhar - mira-me), a memória traz cinco personagens de um submundo imaginário que chegam para ir embora, para não chegar. É o absurdo do ser humano e do seu comportamento. Os personagens habitam uma dimensão no meio do caminho entre a realidade e a distorção. Nessa montagem, os personagens pedem para serem olhados. ‘‘É uma carência. Estamos todos impregnados da necessidade de nos quererem sempre’’.
Para Marta Carrasco, é difícil definir o espetáculo com palavras. ‘‘Mas somente pelas imagens a comunicação é direta. É que o espetáculo fala de seres humanos, por isso é acessível’’, comenta. ‘‘Não gosto de espetáculos herméticos. O que importa é compartilhar com o espectador’’.
A beleza da imperfeição e da monstruosidade foi a inspiração para a concepção de ‘‘Mira’m’’. ‘‘É o pior e o melhor do ser humano’’. Ao falar de seres monstruosos, o espetáculo parte da experiência cotidiana com a comunicação visual com pessoas desconhecidas, inspirando-se em imagens de artistas como o poeta William Blake e o pintor Edvard Munch (‘‘O Grito’’). A trilha sonora inclui desde os clássicos Mozart e Schubert até Tom Waits e Ennio Morricone.
O espetáculo tem muito humor e, ao mesmo tempo, situações que dão medo. Marta Carrasco salienta que se agarra na essência humana, mais que em qualquer outro elemento, para chegar ao espectador.
Pela primeira vez no Brasil, Marta Carrasco – 38 anos – conta que ‘‘estreou tarde’’ na dança, aos 18. Antes era pianista de um grupo de rock sinfônico. Com formação musical em piano e canto, estudou também bailado, dança jazz e dança contemporânea, em Paris, Nova York e Barcelona, e dançou em espetáculos de diversas companhias na Europa. Em 1997 recebeu o Prêmio da Crítica de Barcelona como bailarina e coreógrafa pelas montagens ‘‘Aiguardent’’ e ‘‘Pesombra’’. Em 1999 recebeu o Prêmio Butaca pela melhor atuação, em toda a Espanha, no bailado ‘‘Blanc d’Ombra’’.
SERVIÇO
‘‘Mira’m’’ – Espetáculo da Companhia Marta Carrasco, da Espanha. Criação: Marta Carrasco. Direção: Marta Carrasco e Pep Bou. Assistente: Antonio Vladimir. Elenco: Pepo Blasco, Carme Gonzáles, Adriá Gonzáles, Cristina Sirvent e Neus Suné. Cenografia: Lluc Castells. Figurino: Andreu Sánches. MAquiagem: Pep Cid. Iluminação: Quico Gutiérrez. Duração: uma hora.

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