Novo pacote da Cult traz três preciosidades
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 29 (AE) - Já virou lugar-comum destacar a excelência dos pacotes da Cult, que colocam nas locadoras os filmes da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. O de maio
que deve chegar na próxima semana às lojas, traz três preciosidades. Uma é obra-prima absoluta, para ressuscitar a velha classificação dos "Cahiers du Cinéma" (na fase de capa amarela, de Godard e Truffaut): "Hana-Bi - Fogos de Artifício"
de Takeshi Kitano. Mas não é menos bom "Festa de Família", de Thomas Vinterberg. O mais fraco do trio é o belo "O Silêncio", de Moshen Makhmalbaf. Só isso já dá uma idéia do brilho do pacote de maio da Cult.
Pouca gente notou, mas a história de "Festa em Família" assemelha-se à de um certo príncipe dinamarquês que, em 1601, pronunciou uma frase célebre que, desde então, vem desafiando o tempo: "Ser ou não ser". Não é o dilema hamletiano que move o protagonista de "Festa de Família", mas ele não é alheio ao problema. Edipiano (como Hamlet), o herói volta para casa em plena festa de aniversário do pai para denunciar os podres que ainda reinam na Dinamarca.
O protagonista defronta-se com um fantasma: o da irmã. Juntos, sofreram abuso sexual por parte do pai. A mãe foi conivente. A festa de família vira baixaria, com os irmãos agredindo-se e os convidados fazendo como se fosse possível negar validade às acusações. É um filme forte, intenso. Mas não é só pelo que diz que "Festa de Família" impressiona, mas também pela forma como o diz.
Pois o filme é uma das obras definidoras do Dogma, o documento firmado pelos cineastas dinamarqueses (Vinterberg e Lars Von Trier à frente) estabelecendo dez regras para a realização de filmes. Esse novo decálogo, que propõe um retorno às origens do cinema, estabelece, entre outras coisas, que os filmes devem ser rodados em cenários naturais, sem outra iluminação que não a luz do Sol (ou das lâmpadas comuns em interiores), sem música nem efeitos de espécie alguma.
Em Cannes, no festival do ano passado, Vinterberg chamou o Dogma de "voto de castidade dos cineastas-monges". O elemento cristão só causará espanto em quem não se lembrar da Dinamarca como a pátria do grande mestre espiritualista Carl Theodor Dreyer. É referendado, em "Festa de Família", pelo fato de que o Hamlet de Vinterberg atende pelo sugestivo nome de Christian.
O iraniano Makhmalbaf não é menos alegórico em "O Silêncio", que conta a história de um garoto cego que trabalha como afinador de instrumentos musicais. A situação em si não é excepcional, pois é sabido que as pessoas que não têm um dos sentidos desenvolvem outros mais do que seria normal, até como uma forma de compensação. Makhmalbaf usa essa história para dizer que a verdadeira música deve brotar do interior das pessoas e que o silêncio é um passo importante em direção à arte. Tudo isso feito com grande refinamento sonoro, complementando o refinamento plástico (o maravilhoso uso da cor) com que ele marcou seu filme precedente, Gabbeh, também lançado em vídeo pela Cult.
Finalmente, Takeshi Kitano. Seu novo filme, o oitavo de sua carreira, chama-se "Kikujiro" e foi selecionado para integrar a mostra competitiva do Festival de Cannes deste ano. Com "Hana-Bi", Kitano ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, há dois anos. "Kikujiro" conta a história de um homem que ajuda um garoto a encontrar a mãe. Essa é a sinopse básica, mas com certeza ela foi enriquecida com as densidades e sutilezas com que Kitano transformou "Hana-Bi" num dos melhores filmes dos últimos anos.
É a história de um policial que cuida da mulher, portadora de uma doença terminal. Também cuida de um antigo colega que ficou paralítico em consequência de um tiro. Para eles, o herói reserva a ternura. Para o restante do mundo, a violência. É um filme que destila poderosos eflúvios de violência e ternura. O que torna o material de Kitanio mais rico é a forma altamente criativa como ele desenvolve sua história. Kitano foi ator de "Furyo, em Nome da Honra", de Nagisa Oshima. No Japão, é conhecido como o beat Kitano. Fez filmes vagabundos no Ocidente: "Johnny Mneumonic", com Keanu Reeves. Sua glória não vem daí, mas da beleza sofrida de "Hana-Bi". SERVIÇO - "Hana-Bi", "Festa de Família" e "O Silêncio". Fitas da Cult (tel. 285-3304). R$ 34,00 cada um. Na Internet: www.cultfilmes.com.br.


