Novo pacote da Cult Films traz "Os Guarda-Chuvas do Amor", "Os Idiotas" e "A Maçã"
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de outubro de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 07 (AE) - O que seria do cinéfilo sem os lançamentos importantes da Cult Filmes? A distribuidora coloca todos os meses três novos títulos no mercado. Os que chegam às locadoras, a partir da semana que vem, são preciosos. Há desde o filme todo cantado e en-cantado de Jacques Demy, "Os Guarda-Chuvas do Amor", até a provocação de Lars Von Trier, "Os Idiotas", passando pela auspiciosa estréia de Samira, a filha mais talentosa de Moshen Makhmalbaf, na direção - "A Maçã". Um clássico francês, um filme dinamarquês e outro iraniano. Onde mais essa diversidade de cinematografias e culturas? Só na Cult.
Discute-se há 35 anos - desde que o filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes - se "Os Guarda-Chuvas" é, afinal de contas, um musical. O filme era novo em 1964. Continua surpreendente às vésperas do milênio. Não é um musical clássico, não no sentido hollywoodiano, alternando canções, diálogos e danças. "Os Guarda-Chuvas" fica mais próximo da ópera - só canto, nenhuma dança. Mas a magia vem do musical, o clima de encantamento, a reorganização do espaço. Um espaço mágico que, dentro do clima de fotonovela do filme, talvez seja, paradoxalmente, realista para Demy.
"Os Guarda-Chuvas" conta a história de um casal de enamorados. Ele parte para a guerra, ela jura que vai esperá-lo, mas não espera. Casa-se com outro. Essa é a trama, que tem um happy end temperado por um travo amargo. De que jeito? Veja o filme para saber. Nas entrelinhas, o fantasioso "Os Guarda-Chuvas" fornece mais informações sobre a França dos anos 60 do que a maioria dos filmes da época. O herói volta amargurado da Argélia, um assunto tabu. Quase vira alcoólatra.
A personagem de Catherine Deneuve só se casa com outro porque a mãe burguesa a pressiona - não quer um neto bastardo. Poucos filmes são tão críticos nos seus devaneios. É um belo trabalho - lindo nas cores, nos delicados movimentos de câmera e nas canções compostas pelo cúmplice de Demy, o grande Michel Legrand. E é sempre agradável ver o nascimento de um mito.
Depois desse filme, Catherine Deneuve fez "Repulsa ao Sexo" e "A Bela da Tarde", virando a superstar que todo o mundo conhece. Mas é procedente a acusação que alguns críticos fazem: ela talvez seja Barbie demais no filme de Demy. Não se pode dizer que os criadores da boneca famosa se inspiraram em Catherine. Barbie já tinha 5 anos na época de "Os Guarda-Chuvas do Amor". Dogma - No outro extremo situa-se "Os Idiotas", de Lars Von Trier. O filme mais angustiante e provocativo do Dogma, sobre um grupo de amigos que asssume a idiotia como forma de contestar os valores da sociedade estabelecida. O Dogma, com seu naturalismo antiilusionista, é um movimento, quem sabe uma escola, das mais importantes do cinema atual. E "Os Idiotas" expressa, mais do que qualquer outro filme, a náusea do fim do milênio, o vazio provocado pelo fim das utopias, a angústia de quem quer contestar e não sabe mais como fazê-lo, num mundo cada vez mais globalizado.
Não num meio-termo, mas entre o encantamento de Demy e a veemência de Von Trier situa-se a jovem Samira Makhmalbaf. Ela se baseou num caso real ocorrido no Irã. Duas irmãs foram mantidas em cativeiro pelos pais ignorantes. Libertas, ingressam num mundo novo inesperado para elas. Samira não reconstitui, à maneira de um docudrama, a experiência do cativeiro. Focaliza o que ocorreu depois às irmãs. Seu compromisso, como ela declarou durante a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo do ano passado, é com a vida. É um bom filme de estreante. Serviço - "Os Guarda-Chuvas do Amor", "Os Idiotas" e "A Maçã". Distr.: Cult, tel. 820-6670.


