Novo pacote da Cult Filmes aposta na diversidade
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quarta-feira, 24 de março de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 25 (AE) - Estão cada vez melhores os pacotes da Cult Filmes, que coloca no mercado os títulos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Já está nas locadoras o pacote de março, formado por três filmes que se caracterizam pela diversidade de temas e estilos: "O Jarro", de Ebrahim Foruzesh; "Junk Mail", de Pal Sletaune, e "Bom-Dia França", de Manuel Poirier. O de abril vai trazer "Hana-Bi - Fogos de Artifício", de Takeshi Kitano, e "Festa de Família", de Thomas Vinterberg - mais diversidade e mais qualidade, ainda. Os pacotes da Cult são opções inteligentes para cinéfilos.
"O Jarro" representa o cinema iraniano, um dos melhores do mundo, na atualidade. O cinema do Irã é o reverso das produções de Hollywood: minimalista, quase documentário, feito com poucos recursos e muita emoção. Um cinema de inspiração neo-realista. Até como forma de driblar a censura do regime dos aiatolás, os cineastas iranianos gostam de colocar na tela assuntos ligados a crianças. Para os filmes de temática adulta as restrições são maiores: proibição do sexo e da violência, exigência do véu para as mulheres. Para os filmes de temática infantil a liberdade é muito maior.
Vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno de 1994 e do prêmio do júri na 18.ª Mostra Internacional de Cinema, "O Jarro" tem a simplicidade que faz a riqueza do cinema iraniano. Para quem se liga na história, é bom destacar que ela não é o mais importante. A complexidade, que o filme possui, nasce das observações humanas e sociais. Tudo se passa numa escola no interior do Irã. O jarro onde é guardada a água para as crianças aparece trincado. A partir daí, a comunidade é mobilizada e cada um termina manifestando uma reação. Faruzesh filmou numa região desértica, sob calor de mais de 45 graus, com atores não profissionais. Resultou um belo filme. Road movie - Belo também é "Bom-Dia, França", que nos cinemas se chamou Western. Ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes de 1997. É um filme estranho. Um road movie com título em inglês
rodado na região francesa da Bretanha, por um diretor franco-peruano e com dois personagens de estrangeiros no país, um catalão e um russo. O espanhol vende sapatos e fica sem o carro, roubado por um andarilho que se diz russo. Esse último é um tipo sinuoso, que muda de perfil conforme anda a história. O mesmo ocorre com o catalão, que esconde um temperamento frágil por trás de uma aparência de dominador.
Nada nem ninguém é o que parece ser em "Bom-Dia, França". O filme é isso: dois homens com o pé na estrada, buascando a mulher ideal e encontrando pessoas. Encontram um paraplégico negro, que direciona a história para o que o diretor quer dizer. Talvez por sua origem peruana, o diretor também se sente um estrangeiro na França. Aproveita para discutir um efeito cruel da globalização: as fronteiras estão abolidas para as marcadorias, mas as pessoas têm cada vez mais dificuldade para circular.
Como outro filmes francês recente, "A Vida de Jesus", de Bruno Dumont, "Bom-Dia, França" expõe a Europa unificada - e atormentada pelo desemprego, onde ser diferente tem profundas desvantagens. Poirier mostra que gente de pele e língua diferente tende a ser identificada como inimiga. Seu filme faz uma opção clara pelos fracos e oprimidos. Estar do lado dos perdedores não é bem visto nestes tempos de neo-liberalismo econômico. "Bom-Dia, França" não se envergonha de estar na contra-corrente. Tira daí a sua força.
"Junk Mail" não trata de pobreza nem de desemprego. É um filme norueguês. Foi considerado a revelação da Semana da Crítica no Festival de Cannes de 1997. O protagonista é um carteiro que tem um prazer todo especial em violar cartas alheias. Ele se apaixona platonicamente por uma das mulheres cuja correspondência viola. Mas não é fácil aproximar-se dela. O diretor é Pal Sleutane. Tem talento. Humor negro - Trata-se de um filme diferente de tudo o que o espectador tem visto. A revista francesa "Cahiers du Cinéma" fez uma observação interessante que capta a originalidade de Sleutane. Seu filme subverte a lógica da história por meio de um procedimento pouco usual: a desordem mental dos personagens é tão grande que o espectador se sente mais ou menos como se figuras estranhas tivessem invadido o filme. Há um desencontro entre os personagens e a história, que tem como resultado um humor que pode ser definido como negro. Prepare para divertir-se bastante. Serviço - "O Jarro", de Ebrahim Foruzesh, 83 min. "Junk Mail", de Pal Sleutane, 85 min. "Bom-Dia, França", de Manuel Poirier, 136 min. Distribuição: Cult Filmes (285-3304)


