Novo olhar
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quarta-feira, 18 de abril de 2012
Márcio Maio <br> TV Press 
Promover mudanças em sua teledramaturgia parece mesmo ser uma das prioridades da Globo. Tanto que a emissora, apesar de manter em sua lista de autores contratados nomes do prestígio de Glória Perez, Sílvio de Abreu, Gilberto Braga e Aguinaldo Silva, vem apostando em novos roteiristas para os folhetins das faixas das 18 e das 19 horas. Como Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, dupla responsável pelo texto de ''Cheias de Charme'', trama que substituiu ''Aquele Beijo'' esta semana.
Mas experiência no gênero não falta a ambos. Izabel já foi colaboradora de mais de 10 novelas e Filipe, que começou a carreira com roteiros de teatro, ajudou a escrever pelo menos 12 folhetins. Mesmo assim, não tinha certeza se queria se aventurar com um projeto próprio. ''A verdade é que a Izabel me seduziu. Quando a Globo me pediu uma sinopse, pensei logo em chamá-la. E foi a melhor coisa que fiz'', avalia ele, que já teve outra história recusada pelo canal. ''Era de época e na fase em que não se queria nada de época'', resume.
A ideia inicial para escrever ''Cheias de Charme'' veio da vontade de explorar conflitos entre duas mulheres de posições sociais diferentes: a patroa e a empregada. ''Na verdade, o embate entre duas mulheres sempre rende situações interessantes. E essa relação foi pouco explorada na teledramaturgia, apesar de ser muito significativa na nossa cultura'', analisa Filipe, que escreveu uma personagem em homenagem a Sônia, sua própria doméstica. ''Mas, no nosso texto, Sônia é uma patroa ruim. É exatamente isso o que eu sempre digo que ela seria, se não fosse empregada'', diverte-se.
A sinopse, inicialmente, foi intitulada ''Marias do Lar''. Mas esse nunca foi o nome da novela. ''Como vazou, virou nome provisório'', explica Filipe. E é ele quem se mostra preparado para responder, com dados de pesquisa, por que criar três protagonistas chamadas Marias e todas ''do lar''. ''Se pegarmos a brasileira típica, ela é empregada doméstica, porque essa é a maior categoria profissional feminina. E negra, já que a maioria delas é negra. E temos 13 milhões de Marias no Brasil'', atesta.
Já sobre a suposta inspiração no tecnobrega paraense, Filipe desconversa. ''Pesquisamos o que estava acontecendo na música popular e nos deparamos com manifestações das periferias, pessoas produzindo música sem passar por gravadoras. É um modelo que resultou não só no tecnobrega, mas no próprio funk carioca'', defende Filipe, sempre com o apoio da parceira.
Filipe e Izabel se conhecem há mais de 20 anos. ''Fomos apresentados pelo Luiz Henrique Nogueira, que hoje é do nosso elenco. Ele queria que os amigos autores dele se conhecessem'', lembra Izabel. Mas, curiosamente, a amizade entre os dois só brotou depois que trabalharam juntos pela primeira vez, em 2007, colaborando no texto de ''Duas Caras'', novela de Aguinaldo Silva.
E foi em função daquela experiência que eles passaram a cogitar dar o primeiro voo como titulares na emissora em parceria, a exemplo do que aconteceu com Duca Rachid e Thelma Guedes - as duas escreveram o ''remake'' de ''O Profeta'', ''Cama de Gato'' e ''Cordel Encantado''. ''Novela é um projeto muito longo e cansativo. É bom ter alguém para dividir o trabalho e poder pensar junto'', analisa ela.
Em comum, além da profissão, os dois autores têm também a formação acadêmica. Ambos são graduados em Comunicação Social. Ele pela PUC, ela pela UniverCidade, as duas no Rio de Janeiro. Mas sempre focados na área de roteiro. Filipe escreveu algumas peças até garantir uma vaga na Oficina de Autores da Globo, sendo contratado ao final. Já Izabel, depois de um mestrado em Literatura Comparada, teve na Bandeirantes seu primeiro trabalho: a novela ''Perdidos de Amor'', colaborando para Ana Maria Moretzsohn.
Foi Ana, inclusive, quem levou Izabel para a Globo. Na época, para escrever ''Esplendor''. ''Também fui redatora final de 'Malhação', ao lado da Paula Amaral'', completa. ''Malhação'', coincidentemente, foi a estreia de Filipe na Globo, que entrou no projeto em seu primeiro ano. ''Mas não fui do primeiro grupo, entrei seis meses depois e fiquei um ano e meio, até ser chamado para colaborar em 'O Amor Está no Ar' com o Alcides Nogueira'', explica.


