Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
Com ‘‘Dois’’, um espetáculo diferente, mágico, que lotou o Municipal de São Paulo e terá única apresentação hoje, às 11 horas, no Guairão, o maestro Jamil Maluf oficializa junto ao público curitibano o cargo que acaba de assumir – ele é o novo titular da Orquestra Sinfônica do Paraná. Para a primeira aparição depois de empossado, não deixou por menos: convidou a Cia. de Animação e trouxe para cá o concerto cênico que encantou São Paulo. Lá, na segunda noite do espetáculo, cerca de 500 pessoas voltaram da bilheteria do Teatro Municipal, por absoluta falta de lugares.
Maluf, que regeu a OSP nos últimos anos, a convite da direção, vem disposto a imprimir sua marca, não só para a platéia, mas principalmente para os músicos e aos administradores do Teatro Guaíra. Simpático, amável, porém objetivo, define-se como ‘‘antimaestro’’ por excelência. ‘‘Gosto das relações descontraídas e da maneira descontraída de trabalhar, da mesma maneira como gosto de fazer programações ecléticas e abertas a todo tipo de público.’’
Assim que chegou, avisou: ‘‘Eu não sou um maestro desempregado. Sou regente do Teatro Municipal de São Paulo há 20 anos.’’ Ele conta que aceitou o convite para comandar a sinfônica por dois motivos. O primeiro: identificou um grupo de ‘‘seletos músicos que quer sinceramente que a orquestra entre no século 21’’, e o segundo pela infra-estrutura que a cidade possui. ‘‘Acho que Curitiba nem sabe’’, acrescenta. ‘‘É muito raro encontrar isso em qualquer cidade do Brasil.’’
‘‘São poucas as orquestras brasileiras, por exemplo, que têm um lugar como o Canal da Música. Acho impressionante, a sala é ótima. Se tem que fazer algumas correções acústicas, tudo bem. Mas ela é ótima. Tem mais 20 ou 30 salas de estudo que são fantásticas’’, maravilha-se. Somando-se a isso, há um público qualificado. Por essas e outras ele está aqui, mas espera contar com a boa vontade das pessoas. Senão, nem mesmo ressuscitando Karajan consegue-se qualquer tipo de progresso. ‘‘O milagre é uma obra de todos’’, raciocina.
Maluf priorizou medidas a serem tomadas, começando pela profissionalização dos padrões da OSP ‘‘em todos os sentidos’’, tanto os administrativos como artísticos. Ele argumenta que uma orquestra não pode se apresentar antes de divulgar a programação do ano. ‘‘Estreei minha orquestra há duas semanas, distribuindo para a imprensa tudo que vai acontecer, para que o público se programe, que os patrocinadores se aticem, que os músicos possam estudar as peças que são mais complicadas e se preparar melhor para o concerto.’’
O regente não é dado a preciosismos de só tocar o erudito. Orquestra sinfônica para ele tem o dom da modernidade, é eclética, versátil. Fosse diferente e o cinema debandaria para os computadores e sintetizadores na produção de trilhas sonoras. Do casamento dessas artes deu-se o fruto de um repertório que ele considera ‘‘deslumbrante’’ para orquestra sinfônica. Se a literatura não chega ao barroco ‘‘é porque não tinha cinema naquela época’’, afirma.
Produto típico do século 20, é claro que estará em futuros repertórios. ‘‘A orquestra dentro da música popular é muito importante; os Beatles já mostraram isso’’, comenta. Tem mais: a música popular brasileira viveu momentos históricos e ‘‘Domingo no Parque’’, de Gilberto Gil, ‘‘é um dos ícones do sinfonismo popular’’. Por que fechar-se ao moderno se mesmo as óperas ganharam vida e ‘‘deixaram de ser túmulos, passaram a ser espetáculos interessantes’’ depois que diretores de teatro se interessaram por elas?
‘‘Você tem dança, tem grupos de teatro experimental, como esse que vou trabalhar domingo. Já trabalhei com XPTO, Cidade Muda, Acrobático Fratelli. Enfim, uma orquestra sinfônica é um instrumento muito rico. Então, qual vai ser a tônica da minha programação daqui para a frente? Mostrar isso ao público.’’
Dentro de duas semanas, o maestro voltará a Curitiba para detalhar os projetos durante um café da manhã com os jornalistas. Antes é preciso o aval da direção do teatro – sem ter certeza absoluta das ações, ele não passa adiante aquilo que programou.
A abertura de repertório que vem por aí é fundamentada na certeza de que existe unicamente música boa e ruim. A ‘‘música sem qualidade’’ não pode ser tocada, determina o maestro que não divide o cenário musical entre eruditos e populares. Mas cutuca os acadêmicos do classicismo quando diz: ‘‘Tem muita coisa ruim no campo erudito. Ou o pessoal imagina que no passado só viveram Beethoven, Bach, Mozart? Muita gente compôs na época deles, e não ficou porque era ruim.’’
Maluf afirma que ‘‘com certeza’’ vai tirar o pó da orquestra, e popularizar a qualidade. ‘‘Estou cansado das pessoas acharem que quando você fala em popularização, tem que baixar o nível por causa disso. O nível é inquestionável. Beethoven continua genial, você não pode mexer no que ele escreveu’’, assevera. Popularização exige ciência. É preciso saber levá-la ao público.
O regente indica caminhos a serem trilhados: ‘‘Se você cobra ingresso caro, se não divulga o concerto, se o coloca em horários equivocados que impedem o público de assistir, a coisa vai mal.’’ Até mesmo a postura profissional influi no todo. O músico que se colocar ‘‘num pedestal inalcançável’’ estará criando distanciamento.
A cidade deve nutrir pela sinfônica um sentimento de carinho e respeito como sendo seu patrimônio, o que realmente é. ‘‘Uma orquestra é como time de futebol. Todo mundo tem que torcer por ela. Tem que torcer para que realize um concerto deslumbrante. Tem que se orgulhar dos músicos selecionados, do spalla, do novo integrante que foi contratado’’, atiça, como se o corpo sinfônico vestisse todas as cores dos clubes numa única camisa.
Orquestra Sinfônica do Paraná apresenta ‘‘Dois’’, concerto sinfônico com música, teatro de formas animadas (técnica do teatro negro) e canto. Participações da Imago Cia. de Animação e Associação Coral Teatro Guaíra. Direção musical e regência de Jamil Maluf. Concepção cênica de Fernando Anhê. Hoje no Teatro Guaíra (grande auditório), em Curitiba, às 11 horas. Ingressos: R$ 5,00.Jamil Maluf assume a regência da Orquestra Sinfônica do Paraná e faz concerto
que conta com teatro de formas animadas
Leandro TaquesJamil Maluf deve tirar o pó da orquestra que ele compara a um time de futebol: ‘‘Todo mundo tem que torcer por ela’’Arquivo FolhaOrquestra Sinfônica do Paraná faz concerto hoje com participações da Imago Cia de Animação e o Coral Teatro Guaíra

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