São Paulo, 09 (AE) - Quando surgiu por aqui, com "Amores Expressos", o chinês Wong Kar-wai foi citado como fenômeno. Apresentava um cinema apressado, em ritmo de videoclipe, e a velocidade vazia da narrativa parecia, então, responder muito bem à angústia moderna. Faltava-lhe conteúdo. Mas quem está interessado nisso, hoje em dia? "Felizes Juntos"
seu novo longa, que é agora lançado em vídeo pela Cult Filmes, depois de ter rendido a Kar-wai a palma de melhor diretor no Festival de Cannes de 1997, e de ser lançada no circuito comercial brasileiro, mostra amadurecimento autoral. Depurou o estilo, livrando-se dos maneirismos de câmera que sobrecarregavam um pouco "Amores Expressos". Encontrou um lirismo que transmite à obra o calor que faltava à anterior. Tudo isso empresta equilíbrio e grandeza ao filme.
Com "Felizes Juntos", Kar-wai conta uma história de amor gay. Lai (Leslie Cheung) e Ho (Tony Leung) chegam à Argentina vindos de Hong Kong. Buscam aventuras e acabam por se perder um do outro. Lai vai trabalhar num bar típico de tango em Buenos Aires. Seu amante, um dia, reaparece, ferido. Os dois retomam a vida em comum; brigam, amam-se, como qualquer casal terminal.
O filme é o relato desse relacionamento particular. A maneira como é feito o torna universal. Vale também para heteros convictos, pois fala do amor, sem nenhum adjetivo. Em uma palavra, machões também dançam e podem emocionar-se com as idas e vindas amorosas de Ho e Lai.
As histórias são sempre as mesmas e Aristóteles havia definido as possibilidades limitadas de situações dramáticas quatro séculos antes de Cristo. Variam, sim, as maneiras de contá-las, o que depende de cada época e do talento do narrador. Kar-wai passa a impressão de alguém que encontrou finalmente um estilo, uma maneira personalíssima de colocar-se no mundo, sentí-lo e, sobretudo, expressar o que sente, com originalidade.
O trabalho fotográfico é notável. Há uma sequência recorrente de sobrevôo sobre as Cataratas do Iguaçu, que os personagens vão visitar em tempos distintos. Claro, a queda dágua, majestosa, simboliza a voragem do amor. Basta lembrar, por exemplo, de "Niagara", de Henry Hathaway, traduzido no Brasil por "Torrentes de Paixões". Nas cenas em Buenos Aires, Kar-wai alterna cores com preto-e-branco. Usa ora tons pastel, ora a luz estourada, bem contrastada, acompanhando o mood dos personagens. A trilha sonora, que inclui de Caetano Veloso e Frank Zappa a Astor Piazzolla, é de arrepiar. Todos esses elementos, postos juntos, de modo coeso, emprestam uma densidade emocional que os filmes precedentes de Kar-wai não tinham.
No mesmo pacote de "Felizes Juntos", a Cult Filmes lança "Os Olhares de Tóquio", do francês Jean-Pierre Lemosin, e "A Vida e Nada Mais", do iraniano Abbas Kiarostami, que está competitndo em Veneza com seu novo trabalho. Os três filmes estarão disponíveis nas locadoras a partir da próxima semana.
"Felizes Juntos" ("Happy Together"). Hong Kong, 1997. Dir. de Wong Kar-wai, com Leslie Cheung, Cheng Chang, Tony Leung. Cor, 107 minutos. Distribuição: Cult Filmes.

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