Nelson Sato
De Londrina
Chega às livrarias ‘‘New Jazz – De Volta para o Futuro’’, de Roberto Muggiati, que conta a saga da geração de músicos e compositores que revitalizou o gênero a partir dos anos 80
Os tradicionalistas venceram. Quem dá as cartas hoje no jazz nasceu, cresceu e se formou longe de ímpetos vanguardistas. Os ‘‘jovens leões (young lyons)’’, como foram batizados pela crítica, cultuam tanto o improviso quanto as partituras legadas pelos mestres. Para Wynton Marsalis e seus companheiros de geração, qualquer projeto musical relevante passa antes pela reverência aos clássicos.
Wynton é o maior virtuose do trompete em atividade. Está com novo disco na praça, no qual presta uma homenagem ao pianista Thelonious Monk. Aos trinta e oito anos, perpetua a reputação da dinastia dos Marsalis, principal responsável pela revitalização do jazz nos anos 80. O livro New Jazz – De Volta ao Futuro, que está saindo dos fornos, traz a súmula de sua geração.
Segundo o autor Roberto Muggiati, o ‘‘novo jazz’’ a que se refere o título surgiu em New Orleans com os Marsalis e se alastrou pelos Estados Unidos e Europa ao longo das duas últimas décadas. Seus representantes estabeleceram novos padrões musicais e comportamentais apagando de vez os clichês do artista boêmio, excêntrico, autodidata, indisciplinado, afundado em álcool, drogas, mulheres e ambientes enfumaçados.
O músicos apareceram, ainda segundo o autor, cercados de ‘‘uma aura de seriedade como nunca antes existira no jazz’’. Caracterizavam-se sobretudo por um profundo conhecimento musical (afinal, tinham frequentado universidades e convervatórios), uma eficiência técnica impecável, uma capacidade de interpretar tão bem o jazz quanto o erudito, além da qualidade para passar a limpo os cânones imprimindo-lhes uma marca pessoal.
‘‘A pedra filosofal do New Jazz’’ – diz o autor – ‘‘foi incorporar tudo o que aconteceu no passado para a construção de uma nova linguagem, fugindo de um vanguardismo suicida que acaba desaguando na negação da própria música’’. Muggiati lembra que o jazz surgiu ‘‘ruidosamente e em apenas 30 anos viveu mutações estilísticas comparáveis àquelas da música erudita em 500 anos’’. O jazz, nota ele, sintetizou o dilema da arte em nossa época depois de acolher as big bands nos anos 30, o bebop nos anos 40, o free jazz nos anos 60 e a fusion nos anos 70.
áO autor se detém no free jazz – particularmente na obra do saxofonista Ornette Coleman – para salientar o momento mais agudo de impasse criativo vivido pelos músicos. ‘‘Coleman’’ – escreve ele – ‘‘empurrou o jazz para um beco sem saída, comparável ao que James Joyce fez à literatura com Finnegans Wake’’. A crise coincidiu com a explosão do rock and roll, que eclipsou sua popularidade junto aos jovens roubando-lhe tanto futuros talentos quanto público.
Na pesquisa por novos caminhos, foi criado o célebre selo independente alemão ECM, pelo qual gravaram os artistas mais criativos do mundo incluindo escandinavos, eslavos, italianos, ingleses, indianos e até brasileiros como Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos. Muggiati minimiza a experiência como ‘‘mais um’’ resquício vanguardeiro, enfatizando a perspectiva adotada ao longo das páginas.
Já no limiar dos anos 80, quando muitos decretavam a morte do gênero, uma nova legião de instrumentistas despontou na seara jazzística prestando honras aos heróis do passado. Eram filhos de gente que ouvia ou tocava jazz. Vários deles estudaram na Berklee College of Music e passaram pelo grupo Jazz Messengers de Art Blakey.
O livro mapeia essa produção traçando perfis de seus principais expoentes. O painel destaca, entre outros, Branford Marsalis (irmão de Wynton que tocou com o astro pop Sting), Courtney Pine (perfeccionista britânico), Terence Blanchard (que toca no Brasil no final deste mês), Wallace Roney (saudado como o legítimo herdeiro de Miles Davis), Joe Lovano (aclamado como um dos melhores saxofonistas do século), Cassandra Wilson (eleita vocalista feminina de 99 pela revista DownBeat), Harry Conick Jr. (considerado o novo Sinatra), Jane Ira Bloom (musa do soprano), Brad Mehldau (pianista comparado a Bill Evans), Stanley Jordan (o ‘‘pianista’’ da guitarra), Stefon Harris (nova estrela do vibrafone), Brian Slade (eleito melhor baterista de 99 pela revista DownBeat) e Gregg Bendian (o John Cage do novo jazz).
A lista é vasta com menções aos brasileiros Ivo Perelman (saxofonista radicado em Nova York) e Eliane Elias (pianista que tocou no grupo de Charles Mingus). A música brasileira, aliás, exerce fascínio sobre boa parte dos novos jazzistas. Terence Blanchard, por exemplo, gravou um álbum só com temas brasileiros de Ivan Lins. Javon Jackson, craque do sax-tenor, incluiu em um de seus discos as músicas ‘‘Insensatez’’ (de Tom Jobim), ‘‘Etcetera’’ (Caetano Veloso) e ‘‘Formosa’’ (Baden Powell). E por aí vai.
Outro traço que caracteriza essa geração é a influência do hip hop e dos ritmos caribenhos em seus trabalhos, além da relação estreita com o cinema seja como compositores ou como atores. Mas tudo no ‘‘new jazz’’, segundo o autor, passa antes por Duke Ellington: ‘‘Ele é o norte magnético de toda e qualquer música que se faça nos Estados Unidos. Não há instrumentista ou cantor da nova geração que não recorra – para injetar um pouco de elegância e beleza em seu repertório – às composições de Duke’’.
Não por acaso, o band-leader que deu ao jazz o estatuto de grande arte popular do século 20 ganha um capítulo especial no livro. New Jazz – De Volta para o Futuro chega aos leitores pela editora 34, como mais um título obrigatório de sua coleção Todos os Cantos.

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