Novo gibi de Alan Moore chega às importadoras
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de março de 1999
Por Jotabê Medeiros
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domingo, 14 de março de 1999
Por Jotabê Medeiros
São Paulo, 15 (AE) - Um time de cavalheiros excepcionais da Inglaterra vitoriana está tentando colocar alguma espécie de ordem num mundo caótico. Estamos em 1886 e os cavalheiros excepcionais - entre eles o aventureiro Allan Quartermain, o Dr. Henry Jekyll (alter ego de Mr. Edward Hyde), o Capitão Nemo e Mina Harker, aquela que sobreviveu aos caninos de Drácula - são os personagens da nova história de um dos maiores mitos dos quadrinhos contemporâneos, o inglês Alan Moore. Trata-se da série "The League of Extraordinary Gentlemen" (Wildstorm, US$ 2,95; pode ser encomendado na Devir Importadora, tel. 242-8200).
Alan Moore é o autor do mais celebrado álbum dos anos 80
o clássico "Watchmen" (que está de novo nas bancas, em republicação da Editora Abril). Moore não desenha, é apenas roteirista de comics. Mas o grau de informação e de artesanato de sua obra o coloca entre os mais importantes autores de ficção da atualidade. Com uma qualidade adicional: ele revisa sem nenhuma cerimônia os símbolos da cultura pop contemporânea.
Foi o que ele fez com "Watchmen" (DC Comics, 1986), repassando e enquadrando a mística dos super-heróis. Moore partiu da idéia mais simples possível: se existisse mesmo uma espécie de super-homem na face da Terra, como ele se comportaria em relação aos seres humanos? Esse homem é o Dr. Manhattan e sua reação é das mais compreensíveis: ele se cansa da humanidade e descobre que está irremediavelmente só no mundo. E vai embora.
Mas é possível afirmar que o trabalho mais importante de Alan Moore é "V de Vingança", um impactante libelo antitotalitário publicado em 1982. Com "V de Vingança", Moore investiu pesadamente contra a ameaça neonazista que paira sobre a Europa, criando um mundo ficcional de onde o humanismo foi completamente banido.
Pontua as passagens com os valores de uma época "perdida", como os sonetos de Shakespeare, canções de Leonard Cohen e Bob Dylan, a filosofia de Nietzsche. Invariavelmente, as histórias de Moore são ambientadas num futuro híbrido, com recursos eletrônicos opressivos e décor passadista. Um futuro de ruínas e arrogância.
Com "A Liga dos Cavalheiros Excepcionais", Moore repete a fórmula, criando uma Londres bombardeada, suja, devassa e corrupta. Os heróis da Inglaterra vitoriana (ficcionais) são convocados por uma agência de inteligência à Scotland Yard para solucionar crimes. Moore tem como parceiro o desenhista Kevin ONeill. Na abertura da edição, rodeada de sátiras de anúncios de época, Moore anuncia a si próprio como "o rouxinol de Northamptonshire" e a ONeill como "o Tintoretto de dois centavos".
A edição está saindo pela Americas Best Comics, uma divisão da Wildstorm, que por sua vez é uma editora ligada à poderosa DC Comics. Consta que é uma saída jurídica que Moore encontrou para driblar as disputas de direitos autorais com a editora americana. "A Liga dos Cavalheiros Excepcionais" já está com os direitos sendo negociados para o cinema e tem mais chance do que "Watchmen" (há anos nas gavetas de algum estúdio em Hollywood), porque não requer fortunas em efeitos especiais.
O time de aventureiros é engraçado. Sua líder inconteste é a charmosa Mina Harker. O Capitão Nemo é orientalizado, usa turbante e tem - como vislumbrou Júlio Verne - o pavio curto. O aventureiro Alan Quatermain, de "As Minas do Rei Salomão", é o agente físico da equipe, o único que se engalfinha em serviço. E Hawley Griffin, o homem-invisível, que gastava seus dias semeando o terror entre garotas de um internato, não é exatamente um herói.
Alan Moore nasceu em 18 de novembro de 1953 em Northampton, Inglaterra, uma cidade industrial entre Londres e Birmingham. Filho de operários, cresceu no subúrbio e chegou a ser expulso de uma escola, não conseguindo mais entrar em outra. Em 1971, vivia nas ruas, desempregado e sem perspectivas.
Moore começou a trabalhar com quadrinhos na Embryo, uma revista que criou com alguns amigos, em torno do Northampton Art Lab. Em 1974, casou com Phillys, com quem tem duas filhas. Em 1982, completou sua obra-prima, "V de Vingança", que lhe valeu o British Eagle Award e abriu as portas do mercado americano. Mas nunca saiu de Northampton. Como Raymond Chandler em sua época, Moore é um escritor de grande talento que escolheu trabalhar nos interstícios da indústria cultural. Em vez do romance policial, as histórias em quadrinhos - talvez o mais desprezado gênero artístico do século. Seus personagens, como o amargurado Rorschach, de "Watchmen", têm consistência psicológica e motivações esquizofrênicas. A diferença é que, na descrição de Moore, nós os reconhecemos imediatamente. São os personagens de nosso tempo.