Novo drama de Scorsese, "Vivendo no Limite", estréia amanhã
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quinta-feira, 03 de fevereiro de 2000
Por Elaine Guerini 
São Paulo, 03 (AE) - Martin Scorsese sabe tudo sobre a técnica. Para traduzir o caráter de urgência de "Vivendo no Limite", em cartaz a partir de amanhã (04), o diretor lança mão de imagens aceleradas, enquadramentos pouco convencionais e efeitos visuais a partir das luzes da cidade e das ambulâncias. A adrenalina que impregna cada fotograma contribui para o impacto visual e dramático, sem comprometer a sofisticação característica de Scorsese.
Cada tomada parece ter sido rigorosamente estudada nesta jornada alucinante de um paramédico em plantão noturno pelas ruas de Nova York. A câmera captura a angústia de quem aceitou a dura (por vezes traumática) missão de salvar vidas. Isto porque, às vezes, a tarefa se resume em testemunhar a morte. Vivido impecavelmente por Nicolas Cage (mais pálido do que nunca), o protagonista Frank Pierce está à beira de um colapso. De tanto perder pacientes, em sua maioria vítimas de overdose de drogas ou álcool, de acidentes, facadas, tiros e paradas cardíacas, ele sofre de alucinações. "Sempre tive pesadelo, mas agora os fantasmas não esperam que eu adormeça".
Frank é atormentado por visões, particularmente de Rose, garota asmática que ele não conseguiu salvar. Na corrida desenfreada pelos piores bairros da cidade, em que Scorsese corre com as imagens e abusa das luzes e do som das sirenes da ambulância, ele vê Rose por toda a parte. Para esquecer a culpa, o paramédico passa a beber durante os plantões - o que acentua o turbilhão de sentimentos negativos e resulta em sequências alucinógenas. Quanto mais o personagem enlouquece em meio à degradação humana, mais o diretor encontra recursos visuais para representar o seu estado de espírito.
A única pessoa capaz de salvá-lo da insanidade é Mary Burke, a filha de vítima de parada cardíaca. Sempre que volta à sala de emergência trazendo seus mortos-vivos, Frank encontra a moça (Patricia Arquette, mulher de Cage) perambulando pelos corredores e arredores do hospital. Seu pai conseguiu sobreviver
mas continua em coma. Olhar humano - Frank e Mary descobrem ter muito em comum. Ambos tentam ajudar os outros, mas são incapazes de bloquear as emoções, adquirindo atitude cínica diante da tragédia. Quando Frank tenta brincar sobre a condição de um paciente, não disfarça o constrangimento. Ele sofre com a dor alheia - assim como Scorsese, que lança um olhar humano sobre todas as criaturas, por mais aviltadas que estejam.
O papel da mulher, como agente catalisador, acentua as inevitáveis comparações com "Taxi Driver", um dos primeiros sucessos de Scorsese em que Jodie Foster desencadeia mudanças na vida do protagonista. A bordo de seus veículos, tanto Frank Pierce quanto Travis Bickle (Robert De Niro) mergulham na loucura do mundo que os cerca. Ambos sujam as mãos de sangue. Só que, ao invés de matar pessoas, o personagem de Cage está simplesmente tentando salvá-las.


