São Paulo, 09 (AE) - A obra de Vicente Barreto nunca teve características predominantemente urbanas, mas nunca foi tão nítido nela o cruzamento de elementos negros e índios como em seu novo disco, "E a Turma Chegando pra Dançar". O título sai da música - um coco que, refrão, cai no maracatu e lembra festa de caboclinhos - Deolinda, de Vicente e Chico César. É reminiscente da época em que Vicente, ao lado de Gereba, Capenga e o sanfoneiro Zé de Henrique tocavam em bailes, para ganhar a vida.
Baiano de Salgadalha, distrito de Conceição do Coité, criado em Serrinha, o compositor, cantor e violonista cresceu numa das regiões musicalmente mais ricas do Estado. Na Bahia, como em nenhum outro Estado, preservam-se manifestações ancestrais, de negros e índios, e a tradição impregna toda a obra de Vicente. A questão, agora, é que está mais clara. Como no disco anterior, "Mão Direita", também editado pela gravadora Dabliú, o violão conduz "E a Turma Chegando pra Dançar". Mas não está, necessariamente, em primeiro plano. Ouve-se mais a percussão surda, orgânica, sempre a cargo de Da Lua. Ouvem-se, também, os teclados, programados por Daniel Carlomagno, fazendo contraste com o tilintar do triângulo e dos metais do pandeiro. Vicente regravou "A Cara do Brasil", dele e de Celso Viáfora, a melhor música do disco "Olhos de Farol", de Ney Matogrosso. Há outras parcerias deles, excelentes: a canção "Doente de Paixão", o xaxado "O Craque" (a letra de Celso esbanja humor e inteligência), o bolero "Vinte Anos" (os parceiros têm filhas entrando na adolescência; fizeram para elas) e o baião, pé no reggae, "Dona Dadá".
Casando violões, Vicente deixou para o fim uma faixa instrumental, "Campo dos Meus Sonhos". Para confirmar o grande instrumentista que é. Grande disco de um grande artista - para dançar, ouvir, pensar, ter prazer, admirar e ouvir mais.

mockup