São Paulo, 06 (AE) - Ele diz que detesta o título de "sir", outorgado pela rainha da Inglaterra. Mas se há alguém que merece o título por serviços prestados à música do Reino Unido, esse alguém é Paul McCartney. Meio afastado desde a morte da mulher, Linda, McCartney volta a ser notícia esta semana com o lançamento, na Inglaterra, do disco "Run Devil Run" (EMI). O CD foi gravado em apenas uma semana com uma banda all star que inclui o guitarrista do Pink Floyd, David Gilmour, e o baterista Ian Paice, do Deep Purple. "Run Devil Run" é o primeiro disco de rock de McCartney desde "Flaming Pie", de 1997.
O título é elucidativo da atual condição de Paul: ele não só coloca os demônios para correr em seu novo trabalho, como vai em busca de algum elo entre a música popular britânica e os primórdios do rocknroll. Encarna um Carl Perkins rápido e um Elvis não tão rápido, em passeios por 12 canções dos anos 50 e 60 e três composições originais. "Run Devil Run" é uma das mais agradáveis surpresas da temporada, um disco de primeiríssima. A primeira música, "Blue Jean Bop" (Gene Vincent), poderia muito bem estar em alguma coletânea de Carl Perkins. Em seguida, já é a vez de Paul entrar mais fundo e o que se vê é uma fusão entre Chuck Berry e Beatles, em "She Said Yeah". As guitarras pegam mais pesado e o piano é martelado, como se Jerry Lee Lewis tivesse passado para dar uma canja, em "All Shook Up" (de Elvis Presley), a terceira faixa. "Run Devil Run", a faixa-título (composição original de McCartney), ao mesmo tempo em que é uma homenagem a Chuck Berry, é também um exercício de exorcismo de McCartney.
Borocoxô desde que Linda McCartney morreu, há quase dois anos, ele não se mostrava muito bem-disposto ultimamente. Mas parece ter superado o trauma. Linda McCartney morreu em abril do ano passado, aos 56 anos, de câncer. "Sinto-me melhor agora", disse Paul. "Fiquei arrasado durante quase um ano e só agora começo a melhorar", afirmou o cantor, em entrevista ao "Wall of Sound". "Minha última lembrança dela é seu espírito genuinamente rocknroll".
"Run Devil Run", a faixa que puxa o disco, é um rock balada à moda de Roy Orbinson. "Lonesome Town", de Rick Nelson
é outra balada, mais puxada para o country, com Paul esgarçando um vocal com alma e entrega, coisa que falta a esse bando de ídolos de bota e chapéu que grassam por aí. Os Beatles mostram as caras efetivamente em "Try not to Cry", algo que ficaria infinitamente melhor com a guitarra de Harrison e um backing vocal de John Lennon.
Carl Perkins volta a dar as caras em "Movie Magg". Já a havaiana "Coquette", de Fats Domino, é puro Elvis Presley. David Gilmour diverte-se com as guitarras e empresta à velha canção a linguagem que desenvolveu em décadas de Pink Floyd. McCartney embaralha as influências e tira delas um suingue e uma excitação como há muito não se via no mundo entediado do rock. Modernidade - "What Is This" é mais uma composição original de Paul McCartney. O rocknroll arcaico toma um banho de modernidade e sai com as sutilezas harmônicas e melódicas do som de Liverpool, sob a bateria pesada e uma chuva de guitarras aparentadas de um Oasis ou um Blur. "I Got Stung" é puro Richard Pennyman (ou Little Richard, para quem tem mais intimidade). McCartney solta a franga e canta como se estivesse em uma daquelas festas gospel de Memphis.
"Honey Hush" volta a Chuck Berry - aqui, a voz de McCartney está irreconhecível, dotada de um frescor e uma ousadia juvenis como há muito não se via. O disco fecha com "Shake a Hand" e "Party", uma mais lenta e outra mais festiva, nenhuma melancólica. Paul parece que queria mostrar a si mesmo que estava bem, que entendia que a vida deveria retomar seu curso com entusiasmo e determinação. Dá para ficar imaginando o que será a turnê desse CD, com esse jovem senhor de 57 anos (nasceu em 18 de junho de 1942).
Na verdade, o CD "Run Devil Run" marca um retorno nostálgico de McCartney a um álbum fora de série que fez em 1987
na antiga União Soviética, "Back in the URSS" (referência à canção de Chuck Berry, Back in the USA, que falava das maravilhas da América). Em "Back in the USSR", feito em dois dias em um estúdio de Londres, com um grupo pequeno de músicos ingleses, McCartney revisitou algumas das canções que fizeram sua cabeça nos tempos pré-Beatles (Lucille, Kansas City, Thats All Right Mama, entre outras). Lançado apenas na ex-União Soviética, o disco acabou sendo pirateado infinitamente na Europa, o que forçou seu lançamento também no restante do mundo. Vida - Nascido em Allerton, um subúrbio de Liverpool, McCartney teve sua vida marcada pela perda. Quando criança, perdeu a mãe, Mary, de um câncer de mama (o mesmo que levou Linda Eastman). O pai, um vendedor e também frontman de uma banda que tocava acompanhando filmes mudos (a Jim Mac Jazz Band), deu-lhe uma guitarra para ele tentar a sorte na música. Paul tinha 15 anos. O pai não imaginava que iria tão longe. Naquela época, o jovem McCartney superou a saudade da mãe tocando músicas de Elvis e Chuck Berry, o som que o levou a entrar no Quarrymen - a banda precursora dos Beatles.
Hoje, volta ao som básico para tentar superar uma nova perda. Paul McCartney volta em dose dupla: também está para sair "Working Classical", mais um trabalho do músico, desta feita com incursões pelo território da música erudita com a London Symphony Orchestra e o quarteto de cordas Loma Mar. Agora, mais do que as homenagens aos pioneiros do rocknroll, temos um punhado de canções originais de Paul McCartney, da mais fina tradição do rock. Deus o conserve, sir.

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