sintetizadores, samplers - uma síntese do disco e do trabalho em progresso do compositor, que assume, definitivamente, lugar entre os maiores.Por Mauro Dias São Paulo, 24 (AE) - No fim do ano passado Lenine anunciou que seu próximo disco teria o título de "Falange Canibal". Aludiria à espécie de movimento que o compositor pernambucano criou, no início da segunda metade dos anos 80. Os encontros da falange reuniam gente de diversas correntes estéticas, para troca de informações, jogos de interação com a platéia. Lenine já tinha estrada, mas grupos como "O Rappa" e "Cidade Negra" começaram ali a testar o trabalho diante do público. A idéia do entredevoramento cultural vinha de antes e sobreviveu à falange. Se Lenine é hoje o ponta-de-lança da música nordestina, combinando o sotaque mais tradicional e as novas linguagens sugeridas pelo aparato eletrônico, também já cultivou raízes de extração diversa. Participou de grupos de rua recifenses - blocos como o "Segura a Coisa" e o "Bote na Roda" nasciam uns dos outros - e, ao mudar-se para o Rio, tornou-se o principal autor dos sambas-enredo do bloco "Sovaco de Cristo", da zona sul, do qual é fundador. Teve sete sambas campeões. O samba não era sua linguagem de raiz, mas era o que havia - e ele cumpria o papel de compositor e de puxador de samba muito bem. Tão bem que Guinga o escolheu para participar de seu novo disco, "Suíte Leopoldina". Lenine canta o delicioso enredo "Mingus no Samba", que muito exige de clara emissão de notas e sílabas. Mas Lenine é um embolador. Tira de letra. Bem, o disco que talvez se chame "Falange Canibal" está pronto e deve ser lançado no mês que vem. O título definitivo é segredo. O CD é segredo. Mas a reportagem antecipou-se e o ouviu. É muito bom. Supera as expectativas de quem via nesse Oswaldo Lenine Macedo Pimentel, que está chegando aos 40 anos, o autor de uma nova síntese, de tradição e futurismo, um passo adiante, 20 anos depois, do que sintetizou Alceu Valença com seu histórico "Cavalo de Pau". O novo disco segue buscando o que Lenine chama de "som artesanal com computadores" - seu maracatu cibernético tem tanto do calor da folia pernambucana quanto de novíssimas invenções tecnológicas - mas, atenção, prevalecem o maracatu, o coco, a ciranda; a música continua sendo nordestina. E está destinada, como sempre, a satisfazer o gosto de gregos e troianos - da turma que prefere as raízes à garotada que cultua as referências pop. Repetindo, desse modo, o quase milagre do agrado geral conquistado (e mantido) por Alceu Valença. Lenine fez três discos, antes desse: "Baque Solto", com Lula Queiroga, "Olho de Peixe", com Marcos Suzano, e "O Dia em Que Faremos Contato", como titular único. Em "Baque Solto" insinuava-se o estilo que agora é sua marca. Em "Olho de Peixe", lançado em 1994, já estava tudo definido. Funcionava assim: Lenine compunha, cantava e tocava o violão percussivo, na medida exata para que Marcos Suzano expusesse sua percussão orgânica. Disco premiadíssimo, fez supor que os autores voltassem, com um volume dois. Eles preferiram trabalhos-solo. Mas Marcos Suzano está ditando o pulso em "O Dia em Que Faremos Contato" (1997), como também no novo trabalho. É que eles são, ou assim parece, indispensáveis um ao outro. O percussionista carioca, que começou a tocar pandeiro ouvindo os grupos de samba do Rio, encontrou no pernambucano sua outra metade musical. É com Lenine que sua arte formidável mais bem se realiza. Vendo do outro lado, a percussão cava, orgânica, de Suzano, enriquece e torna ainda mais vivo o corpo visceral das composições de Lenine. Novo disco, além da percussão de Suzano, estão presentes os parceiros habituais - Lula Queiroga, Bráulio Tavares - e um novo - o irregular Paulinho Moska, aqui em seus melhores achados (em "Relampiano"). O CD abre com uma regravação - de "Jack Sou Brasileiro", homenagem a Jackson do Pandeiro já registrada por Fernanda Abreu: "Já que sou brasileiro/E que o som do pandeiro é certeiro e tem direção/Já que subi nesse ringue/E o país do suingue é o país da contradição/Eu canto pro rei da levada/Na lei da embolada, na língua da percussão/A dança, a muganga, o dengo/A ginga do mameluco/O charme dessa nação." É uma declaração. A gravação do autor é pesada, mais pesada do que a de Fernanda. Tambores de maracatu rural dão a introdução. O violão entra picotando, o contrabaixo e a percussão - as duas, a orgânica e a eletrônica superpõem-se. O peso aumenta na segunda faixa, "Na Pressão" ("Olho na pressão/Tá fervendo/Olho na panela/Dinamite é o feijão cozinhando/Dentro do molho dela"). Não é uma idéia nova, mas vai apresentada de forma nova e oportuna - há questões sociais a observar-se com muito cuidado e a denúncia em forma de música, que já foi marca da MPB, andava deixada de lado, virando quase monopólio de rappers e afins. Mas o novo disco de Lenine não se fixa na fórmula. Dá vez a canções líricas, como a bela "Paciência" ("Enquanto o tempo acelera e pede pressa/Eu me recuso, faço hora, vou na valsa") e ao coco eletrônico lento de "Meu Amanhã". Em "A Rede" revela um murmúrio existencialista e, em "Tubi Tupy", casa tambores e sons sintetizados, como a letra indicaria: "Eu sou feito de resto de estrelas/ (...) Sou o índio da estrela, veloz e brilhante, que é forte como o jabuti (...) Meu nome é tupi, guaipuru, meu nome é Peri e Ceci, sou neto de Caramuru, sou Galdino, Juruna e Raoni." Lenine seresteiro? É o que aparece em "A Medida da Paixão", modinha acidentada em que o compositor reafirma os dotes de intérprete. O peso volta contrastante em Alzira, que o espera em algum paraíso distante: aqui o pulso é todo eletrônico. Para novo contraste, "Rua da Passagem" leva o boi e o maracatu de baque virado, os pífanos, o berrante, a voz dos cantores da festas, os metais da bandinha do interior pernambucano para a Rua da Passagem no centro do Rio - onde, afinal convivem as etnias da etnia brasileira. A idéia de denúncia volta na regravada "Relampiano" ("Tá relampiano, cadê neném? Tá vendendo dropes no sinal pra alguém") e o disco fecha com a longa - quase oito minutos - "Eu Sou Meu Guia", com triângulos

mockup