''Água, por favor'', pediu uma voz embargada na platéia logo após a apresentação do documentário ''A Costura do Invisível'', livro e DVD do estilista Jum Nakao. A cena aconteceu em Curitiba na recente passagem do estilista pela Capital, mas bem que poderia ter sido testemunhada em qualquer dos quatro cantos do Brasil por onde ele tem passado nos últimos meses falando sobre o já histórico desfile de junho do ano de 2004 na São Paulo Fashion Week, em que as modelos rasgaram as roupas de papel em plena passarela.
Foi durante o processo que Jum define como ''criativo e doloroso'' de montagem da coleção primavera-verão 2004/2005 que ele decidiu que deveria atingir muito mais do que apenas os 1.200 convidados do desfile. A idéia do livro e DVD apareceu como sequência natural. Na platéia, as lágrimas também ainda caem naturalmente.
A opção por uma performance que acabou marcando a história da moda nacional rendeu espaço na mídia até então jamais contabilizado pelo estilista. Na passarela, ao invés de criações convecionais, roupas de papel vegetal ricamente trabalhadas com inspiração no pomposo final do século 19. Da concorrida primeira fila aos convidados que ficaram em pé lá no fundo, o espanto foi um só quando as modelos começaram a rasgar vigorosamente suas roupas. Houve quem se indignou porque queria mesmo o convencional, houve quem chorou sentindo a dor da ''morte'' inesperada de coisas tão belas. Mas o público foi unânime em sair incomodado da sala e desfile.
''Se a moda nasce para morrer, resolvi matá-la antes de nascer para fazê-la viver sempre'', disse Jum pouco em uma entrevista no ano passado. Em Curitiba, quase nove meses depois, percebeu-se que tudo está mais ainda mais vivo e pulsante. ''O papel branco pode ser o princípio de um prédio. É uma obra inacabada'', explica o estilista sobre a sua metáfora na passarela.
A idéia para a performance arrebatadora foi surgindo ao poucos em algum momento entre os 180 dias que separam uma coleção de outra. Depois de passar semanas buscando referências em cada detalhe da sua vida música, filmes, televisão, livros , Jum sabia que poderia ter tomado vários caminhos. Bem mais fáceis, aliás, porque já lhe eram mais familiares. Mas o desfile de roupas de papel foi aceito como uma opção para ''navegar no oceano de incertezas e não ficar preso às ilhas de certeza'', conta.
Como preferiu arriscar, Jum acabou mergulhando com toda a equipe em horas e mais horas de trabalho. Incansáveis, eles se debruçaram sobre moldes e papéis por cerca de 700 horas. E tudo em esquema de sigilo total. As modelos, por exemplo, só ficaram sabendo que iriam rasgar suas roupas poucos instantes antes de entrarem na passarela. A cara de espanto delas está registrada no DVD. O documentário acompanhou a movimentação antes, durante e depois do desfile.
Jum Nakao conta que percebeu que tinha atingido o objetivo quando viu as pessoas avançarem na passarela para pegar um pedacinho de papel que fosse para guardar de recordação. ''Consegui vestir o que mais me importa, que é a cabeça das pessoas'', avisa.
Ao escolher o final do século 19 como inspiração para as roupas de papel, Jum conta que pensou na elaboração das roupas que pudessem ''estabelecer rapidamente um elo mágico entre espectador e o desejo de ter as roupas''. O antigo com o moderno foram unidos pelas perucas de bonecos Playmobil usadas pelas modelos.
O impasse aconteceu na hora de buscar patrocínios para algo tão inusitado. Depois de receber seguidos nãos de todas as companhias de papel do País, Jum foi atrás de editoras que pudessem encaminhá-lo ou abrir caminhos. Acabou ganhando boa parte do patrocínio da Editora Senac, que se interessou em documentar a história toda. ''A cultura é a nossa salvação'', avisa Jum.
O desfile-performance rendeu, além dos convites para palestras pelo Brasil afora, também dois trabalhos para o estilista. Primeiro uma instalação numa galeria paulistana e depois uma concepção fantástica de figurino para a microssérie ''Hoje é Dia de Maria''. Todo o núcleo real da trama foi criado em papel por ele, tanto a roupa de Letícia Sabatella quanto os bonecos de três metros de altura. ''Não queria só fazer o figurino'', explica Jum, que com suas idéias acabou até interferindo um pouco no jeito em que a história foi apresentada.
Em janeiro, durante a temporada de desfiles outono-inverno o estilista não apresentou coleção e preferiu apenas lançar seu livro + DVD. Mesmo assim, marcou presença fashion porque assina uma coleção para a linha Ginga da Nike.
Tem inspiração no Brasil, com criações nacionais, mas será vendida em todo o planeta. As roupas rasgadas em junho passado também foram metáfora para uma nova fase que o estilista está vivendo.
Quanto a emoção e lágrimas que rolaram em Curitiba, foram mesmo resultado da catarse provocada pelo questionamento do estilista. O papel rasgado e picotado segue em branco para quem quiser escrever novas histórias.

Serviço:
- A Costura do Invisível Jum Nakao. Editora Senac. Livro e DVD. R$ 150,00.

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