Novo álbum do Pretenders ironiza mundo fashion
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domingo, 04 de julho de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São paulo, 05 (AE) - Ela aparece na capa em pose de sandinista, sob um fundo vermelho, o punho erguido, a inscrição em espanhol "Viva El Amor!" sob o braço. Ela é Chrissie Hynde, a mais bela voz feminina do rock nos anos 80 - exceto Patty Smith e Janis Joplin, nenhuma outra mulher cantou rock com tanta urgência como Chrissie. "Oh, back on the chain gang!"
Front woman da banda Pretenders, ela nunca fingiu o que realmente sentia. Veio ao Brasil para o extinto Hollywood Rock, numa época em que Johnny Marr emprestava sua guitarra à banda de Chrissie, The Pretenders. Noite memorável no Pacaembu. Ela agora volta com alguns convidados. Jeff Beck é um deles, na faixa "Legalise Me" (o manifesto da amante indignada?).
Aos 47 anos, ainda com seu cabelo negro, o jeito natureba e os olhos de cigana sonolenta, ela mantém intacta a voz cortante. E também a ironia de outros tempos. Em "Pop Star", a faixa de abertura do álbum "Viva El Amor!" (WEA), ela satiriza os pop stars pré-fabricados da indústria do disco. "Todos os designers lhe enviam roupas novas/ Ela quer ficar parecida com Kylie Minogue", diz a cantora.
Chrissie já perdeu um namorado para uma estrela emergente. Mas não é só esse sentimento revanchista que faz de "Viva el Amor!" um disco curioso. É a descoberta de Chrissie que há uma pequena revolução de sinceridade a ser iniciada, e que vai tomar o lugar das antigas lutas revolucionárias. Podem ter certeza: essa mulher sabe o que diz. Ela venceu no rock liderando uma banda de marmanjos, dentro de um universo marcadamente machista. Influenciou meio mundo: Annie Lennox, Shirley Manson, Courtney Love. "Autopromoção tem se tornado parte do jogo atualmente", ela disse ao jornal inglês "The Guardian". "Se eu tivesse feito o jogo das gravadoras, será que aquelas canções teriam sido tão boas?", ela pergunta. Em Dragway 42, um inferno de guitarras - protagonizado por Adam Seymour e a própria Chrissie - duela com um quarteto de cordas, o The Duke Quartet. O mesmo quarteto atua em "The Biker", que era para ser a canção-título do disco mas o produtor de Chrissie preferiu "Viva El Amor!". Uma música sobre um ciclista? "O biker vive com seus próprios princípios", ela conta. "É um lutador da liberdade, um renegado, e é romântico, mas com um ideal".
Chrissie Hynde é, na verdade, americana. Nasceu em Ohio, mas mudou-se para a Inglaterra em 1973. Quando tinha 14 anos, um show dos Stones a fez decidir-se pelo rock. Em 1978, em pleno reinado do punk rock, criou o Pretenders, na época com Pete Farndon (baixo), James Honeyman-Scott (baixo) e Martin Chambers (bateria). Chambers é o único que continua com ela. Honeyman e Farndon morreram de overdose, num intervalo de apenas dois anos.
Ela viveu com Ray Davies, dos Kinks, em 1982 - tem uma filha com ele, Natalie Ray. Depois, viveu um ano com Jim Kerr, do Simple Minds - tem uma filha também com ele, Yasmin. Depois, parece que desistiu dos homens por um tempo e passou a criar as filhas sozinha. Mas, como ela mesma diz, "Viva El Amor!" Casou-se com o escultor colombiano Lucho, "que parece com Che Guevara", e está radiante. Gravou até uma canção em espanhol, "Rabo de Nube" (Se me deixassem pedir um desejo/ Preferiria um resto de nuvem/ Que levasse daqui o feio/ E deixasse um anjo).
A foto "revolucionária" da capa foi feita por Linda McCartney, a mulher de Paul, pouco antes de morrer. Eram muito amigas e Chrissie fez um show no mês passado no Royal Albert Hall em memória de Linda. "Você não pode ter tudo que quer, mas pode procurar", ela disse ao "The Guardian". "Ninguém se detém só porque é mulher ou porque não tem grandes tetas - o único que pode parar você é você mesmo". Bem-vinda de volta, madame Hynde! Serviço - "Viva El Amor!". CD importado dos Pretenders. Warner. R$ 25,00. Ouça canções do CD no site www.studiotan.com


