Durante todo o período em que se realizou o Festival de Curitiba, que encerra hoje, uma das atrações mais dignas de destaque não estava nem na Mostra de Teatro Contemporâneo, e nem no Fringe. ''A Fauna'', espetáculo resultante do projeto Residência das Artes, uma novidade desta edição, foi apresentado no bairro Vila Verde, comunidade carente da periferia de Curitiba, que contou com um elenco formado por moradores da região.
Sem nunca ter atuado antes, ou sequer assistido a uma montagem teatral, o grupo foi formado e orientado por artistas da companhia Os Satyros, que se instalaram na localidade 20 dias antes do festival começar. Neste curto período, o grupo ensaiou e formatou a peça, que se passa na própria comunidade, mostrando as alegrias e tristezas do cotidiano daquela população.
A escolha do grupo Os Satyros para a empreitada não foi aleatória. No ano de 2000 eles realizaram uma intervenção semelhante na Praça Roosevelt, em São Paulo e também desenvolvem um projeto social na comunidade do Pantanal, na Zona Leste da capital paulista. Lá a companhia mantém uma sede que abriga várias oficinas de artes e apresenta espetáculos profissionais gratuitos para o público da comunidade.
''Nosso trabalho na Vila Verde começou da estaca zero. Antes de tratarmos de teatro, procuramos conhecer as pessoas. Ouvimos suas histórias'', comenta o diretor Rodolfo Gárcia Vásquez.
No começo, alguns moradores apresentaram resistência com a idéia. Mas, segundo o produtor Márcio Tesserole, isso diminuiu quando começou o processo de seleção do elenco. ''A idéia inicial era de termos dez atores, mas tivemos que aumentar para 19, pois a procura foi muito grande. Temos muitos voluntários, além de seis atores profissionais. Na equipe há pessoas das mais variadas idades, de crianças a idosos''. Os ensaios eram diários. ''Todo o elenco e os donos das casas onde se passa a peça receberam uma remuneração, mesmo que simbólica'', informa produtor.
''A Fauna'' é um auto teatral, que se passa em diversas locações. Guiado pelo líder comunitário Jessé do Rosario, 46 anos, o público inicia sua caminhada em um auditório, passa pelo interior da Escola Municipal Prof. Américo da Costa Saboia, atravessa ruas, entra dentro de casas, finalizando o trajeto, com duração de uma hora, na praça central, num total de 12 áreas da Vila Verde, apresentando ao público cenas de seu cotidiano e seus talentos locais.
César Daniel Gustavo, 20 anos, é um destes talentos. Ex-dependente de crack, passou por cinco clínicas de reabilitação. Ele se recuperou em 2005 e recomeçou a vida tralhando como feirante e cantando rap. Em uma das etapas do espetáculo, ele apresenta sua música. ''Os Satyros estão adquirindo experiência, e nós também. Está sendo uma aventura louca'', empolga-se o adolescente.
Um dos locais que mais chama a atenção é uma cooperativa de costureiras. Enquanto elas trabalham em suas máquinas, o público assiste a um pequeno documentário sobre as vidas das mulheres. Como se pode notar, a peça não se restringe apenas às artes cênicas, incorporando também música, vídeo e outras linguagens.
A iniciativa levou à população da Vila Verde uma nova forma de atividade cultural, que até então não fazia parte da rotina da comunidade. ''Foi a primeira vez que vimosuma aglomeração que não era morte. Isso abre uma nova expectativa'', anima-se Célia Aparecida Mattos, 40 anos, uma das participantes. Segundo ela, o espetáculo também trouxe maior integração entre moradores. ''A gente mora há tantos anos na Vila, mas na peça havia gente que não conhecíamos, com quem não conversávamos. Graças a ela pudemos ter esse contato'', afirma.
''É uma chance de não fazer teatro apenas para quem faz dieta, mas para quem tem fome também. O Brasil tem um teatro classe média visto pela classe média. Há uma insensibilidade de classe. Não enxergamos as outras classes, a não ser quando somos ameaçados, assaltados'', queixa-se o diretor Rodolfo. ''Intervenções como esta são uma forma de ressensibilizar as pessoas, pois a mídia só dá um lado sensacionalista do que ocorre na periferia. O espetáculo mostra o cotidiano dos moradores sem estas distorções. Não sei se o público vai absorver 10% disso, mas se conseguir absorver uma pitada que seja, já vai ser gratificante''.
Hoje serão realizadas as últimas apresentações, às 18h30 e às 21h30. Um micro ônibus sai do Memorial de Curitiba uma hora antes, conduzindo o público do centro da cidade até o local, retornando após a apresentação. Os interessados podem comprar o ingresso antecipadamente no Memorial ou na bilheteria instalada no ParkShop Barigui. A capacidade é limitada a um ônibus por apresentação.

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