São Paulo, 05 (AE) - Novela, quem diria, é um artigo em baixa na TV brasileira. "Suave Veneno" estacionou na marca dos 37 pontos, o que seria apreciável em outras emissoras, mas é inadmissível numa novela do campeão Aguinaldo Silva, na poderosa Globo. Não é um fenômeno isolado. O remake de "Pecado Capital", escrito por Glória Perez, também anda decepcionando tanto que um reforço já está sendo providenciado pela autora: Glória escreve um papel especial para Vera Fischer, que vai estrelar um triângulo amoroso com os personagens de Francisco Cuoco e Carolina Ferraz.
O caso de "Suave Veneno" é mais curioso, por mais que seja lugar-comum falar de problemas de audiência com novela que está começando. Novela é obra aberta, que só se define mesmo com a participação do público. O próprio Silva não queria que a sua estreasse em janeiro, época atípica, de férias, de horário de verão. Ele apostou alto em "Suave Veneno", ao tomar como ponto de partida nada menos do que Rei Lear, de Shakespeare. Seu projeto anunciado é interessante e talvez ajude a explicar as reticências do espectador. Sobressaltos - Silva prometeu que a cada 30 ou 40 capítulos a novela iria mudar, sofrer um sobressalto, voltar ao leito inicial, como se fosse um recomeço. Já está na hora de ocorrer o primeiro desses sobressaltos. Está previsto, estrategicamente, para logo depois do carnaval. Até lá, quem não está preocupado em sobreviver às flutuações do dólar, com certeza, está terminando de bordar os paetês da fantasia.
Por conta dessas futuras mudanças, a novela está deixando muitos fios em aberto, pelo visto mais do que o espectador está disposto a suportar. O personagem de Diogo Vilela vai continuar gay ou terá um envolvimento com a prima? Até quando Glória Pires ficará desmemoriada? A advogada, com seu perfil de mocinha, vai mesmo virar vilã? Se for, terá um páreo duro pela frente, porque, vilã por vilã, Letícia Spiller já está entronizada no papel.
Letícia Spiller - por falar nela, cabe destacar que a atriz está exagerando na dose. Suas caras e bocas sugerem uma Odete Roitman mais jovem e histérica e não as maquinações de uma garota mimada (e ambiciosa). Talvez seja esse o problema - novela não é artigo que se destaque pela sutileza, mas está faltando esse toque no texto e no elenco. Afinal, quem mandou inspirar-se em Shakespeare? Se era para fazer rotina, a inspiração poderia ser outra.
Mas Silva deve ter seus trunfos guardados. É um autor de muita experiência. Sabe, como poucos, manipular um público que adora ser manipulado no horário das 8. Não foi por acaso que a novela anterior dele, "A Indomada", teve picos de mais de 60 pontos de audiência. Há muita coisa boa na novela. José Wilker está conseguindo fazer um nordestino sem caricatura, um empresário marcado pela dor. E há personagens femininas ótimas. Irene Ravache volta à Globo com um papel sob medida. Sua matriarca expressa uma terceira via para a mulher atual, nem a mamma estereotipada que entope a família de pasta aos domingos nem as mulheres que correm contra o tempo, lotando academias para ter, aos 60 anos, um corpinho de 20.
Por falar em corpinho de 20, Silva está subvertendo o velho sonho masculino de trocar a mulher de 50 por duas de 25. O personagem de Kadu Moliterno tem uma mulher de 25, mas só se realiza na cama com Betty Faria, que tem mais do que o dobro. Mas, claro, é Betty Faria. O tempo passa e ela não perde o título de uma das certinhas, para não dizer gostosas, do País.

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