Novelas da vida real
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quarta-feira, 13 de julho de 2011
Patrícia Villalba <br>Agência Estado 
Rio de Janeiro - Com tramas sempre hiper-realistas, é normal que as novelas de Gilberto Braga e Ricardo Linhares despertem discussões a respeito de como andamos nos comportando como país. Foi assim com ''Vale Tudo'', que Gilberto escreveu com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères em 1988, e que na reprise no canal Viva, acabou por transformar ''Insensato Coração'', a atual novela das 9 da Globo, em peça de comparação. É como se as duas novelas, analisadas em conjunto, pudessem dizer de onde saímos e onde chegamos.
Poderíamos imaginar que Cortez (Herson Capri), por exemplo, o banqueiro inescrupuloso que anda às turras com as autoridades da novela atual, pensou que faria como o Marco Aurélio (Reginaldo Faria) da novela de 1988. Em fuga numa cena que foi ao ar há 15 dias, Cortez tentou reproduzir a antológica ''banana'' que Marco Aurélio mandou para o Cristo Redentor quando deixou o País e seus podres para trás.
Mas o Brasil é outro e, desta vez o castigo veio bem antes do último capítulo de Insensato Coração, que vai ar em meados de agosto. ''O país mudou e a novela espelha a transformação. Cortez pensa que ainda está vivendo na impunidade. Mas, desta vez, o bandido é preso, será julgado e condenado por crimes contra o sistema financeiro'', anota Linhares. ''Isso era impensável na época de Vale Tudo. São gestos simbólicos, que retratam que o Brasil não é mais o mesmo.''
Peça do mundo encantado da telenovela, no qual os maiores obstáculos podem ser superados entre um intervalo e outro, Insensato Coração parece querer destoar da onda de otimismo que a estabilidade econômica e a realização dos ''dois grandes eventos esportivos'' nos querem impregnar. Mas, explica Linhares, a intenção não é ser pessimista, apesar da grande concentração de deslizes éticos que acometem até personagens ''do bem''.
''Não considero a novela pessimista. Sempre ouço e leio comentários de que esta novela mostra a vida como ela é'', afirma o autor, observando que casos como o de Norma (Glória Pires), que foi enganada pelo bonitão Léo se fazendo passar por um príncipe encantado de sugestivo nome ''Armando'', chega a ser didática. ''Muitas mulheres dizem que aprendem com a história a se proteger das pessoas traiçoeiras. Talvez a grande identificação de Norma venha daí. Ela foi vítima de um golpe que poderia ter acontecido com praticamente qualquer uma, se estivesse vulnerável.''
Com cenas pesadas - como quando Léo dispensou Norma, ou como no capítulo de sexta-feira, quando ele foi humilhado por perder um dente -, a novela é palco para grande dose de maldade. Linhares não vê excesso. ''Há um time forte de personagens do bem, a começar por Raul (Antonio Fagundes). ''Mas os vilões sempre chamam mais a atenção. É a 15. novela que escrevo. Nestes anos todos, observei uma coisa. Durante a novela, o público vibra com os vilões. Mas, no final, quer que eles sejam castigados e que o bem triunfe.''


