Novela, mania nacional
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sábado, 19 de julho de 2008
Francismar Lemes<br> Reportagem Local 
Cérebro de autor de novelas trabalha apenas com dois neurônios, o Tico-Ibope e o Teco-opinião pública. Isso explica porque Carlos Lombardi adora peito cabeludo de fora, barriga para dentro tipo assim, Marcos Pasquim, e Manoel Carlos levanta a bandeira de que ''All we need is Love''.
Que fique bem entendido: na cabeça do autor todos precisam de sexo, muito sexo em suas histórias; amor não é fundamental. Nem a trama que tinha até o nome para ser familiar - ''Laços de Família'' - escapou das cenas na cama, e mais, conseguindo ir além da imaginação ao exibir uma desenxabida Camila (Carolina Dieckmann) roubando o namorado da mãe, a deusa Vera Fisher. Como é novela, vai né...
Depois de décadas de exibição do gênero na TV brasileira, ainda existem telespectadores dispostos a defender mocinhas e mocinhos de vilões como Odete Roitman, que só não roubou a filha dos outros. Essa maldade a peçonhenta deixou para Nazaré, que surrupiou a também desenxabida Lindalva em ''Senhora do Destino''.
E também não faltam tipos pitorescos. Se a gente fosse arregimentar os personagens mais bizarros da dramaturgia, teria que começar com João Gibão e a Dona Redonda, de ''Saramandaia'', que são o supra-sumo do gênero, fazendo inveja aos novos mutantes de ''Caminhos do Coração''. O primeiro era um matuto alado e a mulher explodiu de tanto comer.
Porém, contra telespectadores insatisfeitos não tem jeito: somente pondo o Tico e o Teco para trabalhar. Autor e diretor que não escutam a opinião de noveleiros como a londrinense Elizete, são punidos com menos pontos no Ibope.
No top 10 da londrinense estão ''Estúpido Cupido'' e cada uma das lágrimas derramadas pelas Helenas by Regina Duarte, atriz que mais interpretou o personagem clássico de Manoel Carlos, com o nome da ''miss'' de Tróia.
''Desde sempre eu gostei de novelas. Antes também não tinha internet para distrair, sobrando só a televisão. Gosto mais de novelas próximas da realidade do que das fantasiosas'', afirma Elizete Prado, 44 anos, deficiente física e fã dos folhetins.
E por falar em realidade, toda novela que tem gêmeos, um será o bonzinho da trama e o irmão, um capeta em forma de guri. A esposa sempre uma megera e a 'outra' é capaz de lavar, cozinhar e passar, esperando o amante sempre linda, cheia de amor para dar e com um sorriso.
O que dizer então de todo mundo acordar penteado ou um casal dormir e despertar agarradinho e ainda um personagem pegar um taxi, jantar em um restaurante e nunca pagar pelos serviços? Como é novela, vai né...
''Já fui mais crédula. Hoje fico arrumando coisa para fazer piadas, como personagens querendo abrir, por exemplo, uma floricultura num capítulo e noutro já estarem com o negócio montado'', conta Elizete.
Para subir no ibope, no entanto, nada como um bafafá. ''Dancin' Days'', de Gilberto Braga, levou os espectadores ao delírio com os sopapos de Júlia Matos (Sônia Braga) em Yolanda Pratini (Joana Fomm) e, mais recentemente, os de Maria Clara Diniz (Malu Mader) em Laura (Cláudia Abreu). Qualquer semelhança entre as duas sequências não é mera coincidência, mas obra de um mesmo autor. ''Todo brasileiro gosta de um barraco'', explica Elizete.
Apesar de ter nas mãos a espada da justiça da audiência, o espectador não é onipotente. Quando um autor invoca com um candidato à vaga no elenco, não há o que fazer. Alguém lembra de Ricardo Macchi, o cigano Igor de ''Explode Coração''?
As novelas já tiveram vários formatos e horários diferentes, como a das 18 horas, das 19 e 20 horas - que acabaram efetivadas às 21 horas. Porém, uma coisa nunca muda: ''É o final de novela. Todo mundo termina feliz e sempre tem casamento'', afirma a turismóloga Carla Roveri, 26 anos. Para os vilões, sobra a morte ou a loucura, nem que seja a surpresa -ooohhh - do último capítulo.


