‘‘Emboscada no Forte Bragg’’, primeiro texto de Tom Wolfe depois de ‘‘A Fogueira das Vaidades’’, sai em forma de livro no Brasil, antes dos Estados Unidos. Explica-se. Nos EUA, essa novela de 160 páginas, formato pequeno, foi lançada em capítulos pela revista ‘‘Rolling Stone’’ e como audiolivro, em fitas cassete.
Aparentemente, os editores decidiram que a pequena extensão do texto - e, talvez, sua baixa densidade literária se comparada com outras obras do autor - não merecia uma edição convencional. Pelo contrário, espera-se com ansiedade o novo romance de Wolfe, ‘‘The Man in Full’’, um tijolo de mais de 700 páginas que será lançado com pompa e circunstância no outono americano e já está sendo saudado como o provável livro do ano.
Mas como em literatura tamanho não é mesmo documento, ‘‘Emboscada no Forte Bragg’’ (Editora Rocco, R$ 18,00, tradução de Toni Marques) não deixa de ter interesse, apesar de realmente se situar em nível inferior no conjunto de obra de Wolfe. Basicamente, narra a armadilha preparada por uma emissora de TV para três jovens soldados suspeitos de homicídio. O objetivo é fazê-los confessar, no vídeo, o assassinato de um colega homossexual, pego praticando sexo oral num dos banheiros do quartel e morto a pontapés.
Quem já leu Wolfe conhece seu estilo e métodos. Inventor do chamado new journalism, introduziu técnicas de ficção nas reportagens. Produziu textos brilhantes como ‘‘Radical Chique’’ e ‘‘Os Eleitos’’. Na ficção pura, seu ‘‘A Fogueira das Vaidades’’ é considerado, talvez exageradamente, um marco na literatura dos rarefeitos anos 90. Sua prosa é brilhante, envolvente, parece incapaz de escrever algo chato ou chocho. Investiga as situações que deseja retratar, pesquisa, entrevista pessoas envolvidas. Enfim, age como um bom repórter deve agir, mas traduz o resultado num texto em geral esfuziante.
Tudo isso está presente, em escala menor, em ‘‘Emboscada no Forte Bragg’’. E, de quebra, os outros elementos que aparecem como pontos de ancoragem habituais dos trabalhos de Wolfe: aparência cínica que não disfarça sua vocação crítica em relação aos usos e costumes do país; um distanciamento, também típico do ideal jornalístico, de contemplar ‘‘os dois lados de um problema’’; intenção de causar polêmica, afastando-se tanto quanto possível do senso comum e procurando um ângulo de abordagem novo para temas já muito batidos.
Por isso, provavelmente, ‘‘Emboscada’’ não foi lá muito bem recebido pela crítica norte-americana. Acusaram o livro de tratar com excessiva benevolência assassinos brutais, que, lá pelas tantas, são convidados a expor suas razões. Esse tipo de objeção é subproduto do pensamento politicamente correto, porque se a prática de atos de violência não pode ser justificada, também é fato que esses rapazes se criaram e se formaram num ambiente homofóbico, certamente estimulado por suas comunidades de origem e pelo comando das forças armadas. ‘‘Exército não é lugar de gay’’, é a voz corrente nos quartéis do mundo todo.
O (agora) livro pode ser criticado por outros motivos. Um deles, privativo da tradução brasileira, que tenta transpor o linguajar da Carolina do Norte para um ‘‘caipirês’’ que não é falado em parte alguma do mundo. Chega a incomodar. Mas, no todo, o texto tem qualidades que superam e muito esse vício. Wolfe traça um retrato impiedoso tanto da brutalidade militar quanto do cinismo da mídia. Ambas se equivalem em violência e quem, como ele, trata duas boçalidades com a mesma parcimônia e impiedade, deve preparar-se para ser detestado.

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