Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Numa tacada só, a gravadora Movieplay está colocando no mercado um pacote muito bacana de discos inéditos e de ex-bolachões agora tinindo graças à tecnologia digital. No total, nove discos, dos quais três inéditos e seis relançamentos. Dos instrumentais e inéditos, dois não podem passar batidos. São eles Zimbo Trio - 35 anos, ao Vivo e Toquinho e Paulinho Nogueira’’. Preciosos!!
O primeiro foi gravado durantes as apresentações que o Zimbo Trio fez Brasil afora entre 96 e 98. Num entrosamento admirável, Amilton Godoy (piano), Luiz Chaves (contrabaixo) e Rubens Barsotti (bateria) recriam clássicos escritos por gente de peso como João Bosco, Aldir Blanc, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Milton Nascimento e Chico Buarque. Harmonias sofisticadas, biscoito fino mesmo seja em ‘‘Água de Beber’’ (Tom-Vinicius) ou mesmo no pout-pourri dedicado a Milton Nascimento. A princípio, o público acompanha tudo com respeitoso silêncio mas vai se rendendo às maravilhas desse lendário trio que fez história acompanhando, entre outros, as inesquecíveis Elis Regina e Elizeth Cardoso.
O outro disco é muito mais que a união entre dois grandes violonistas brasileiros. Trata-se de um encontro histórico regado à emoção uma vez que foi Paulinho Nogueira quem iniciou Toquinho ao violão, aos 12 anos. O repertório congrega canções populares embora abra espaço para uma obra erudita – ‘‘Ária na 4ª Corda’’, de Bach. No total 13 faixas. Quem sola ou quem faz a base não se sabe. E é aí que está o grande mistério – teria o aluno chegado ao apuro técnico de seu professor? Não vem ao caso. O resultado é simplesmente surpreendente. Um bom duelo de cordas pode ser conferido em ‘‘Odeon’’ (Ernesto Nazareth). A delicada ‘‘Implorando’’ (Toquinho) é outro grande momento.
Outro lançamento da Movieplay é Do Sul Brasileiro, terceiro disco do gaúcho Chico Saratt. Recheado com canções e ritmos típicos do Rio Grande do Sul, o CD traz composições interessantes como ‘‘Cantiga do Rio e Remo’’ (José L. Bicca/Apparicio S.Rillo) e a regravação da belíssima ‘‘Semeadura’’ (Vitor Ramil) que conta com a participação de Renato Borghetti. Chico Saratt se inclina mais para as tradições do que para a modernidade apregoada por alguns artistas gaúchos pertencentes à categoria ‘‘Tchê Musica’’. Para quem gosta do gênero e de voz empostada (cacoete de cantores gaúchos), ‘‘Do Sul Brasileiro’’ vai cair como uma luva.
Já do pacote de relançamento, um tem peso apenas patriótico. Chama-se ‘‘Hinário Nacional’’ e traz os hinos Nacional, da Independência, da Proclamação da República e da Bandeira em versão cantada e só instrumental. O disco foi gravado originalmente em 1960 e traz a interpretação da Banda de Fuzileiros Navais e do Coral Misto das Escolas da Guanabara. Para professores de Moral e Cívica tocarem em sala de aula.
Para compensar, um dos destaques dos discos agora remasterizados é ‘‘Festa Dentro da Noite’’, do pianista paulistano Vadico. Que vem a ser um dos parceiros de Noel Rosa (são deles as antológicas ‘‘Feitio de Oração’’ e ‘‘Feitiço da Vila’’, só para citar algumas). Esse foi o último disco gravado por Vadico e lançado originalmente em 59. Todo instrumental, o trabalho vem com 13 faixas, algumas consagradas como ‘‘Leva Meu Samba’’ (Ataulfo Alves) e ‘‘Se Acaso Você Chegasse’’ (Lupicinio Rodrigues).
Em clima de dancing cassino, ‘‘Festa Dentro da Noite’’ é composto por canções brasileiras enviesadas por outros gêneros – boleros e mambo, por exemplo –, provável resultado das andanças de Vadico pelas orquestras do mundo todo. O disco não traz – e deveria trazer – os instrumentistas que acompanham o pianista. Uma grande falha. Como saber, por exemplo, que é o trombone que costura ‘‘Vai Astor’’ (Vadico), a melhor faixa do disco?
Direto do túnel do tempo vieram também discos do Trio Mocoto e do gaúcho Lúcio Sampaio. Perguntar não ofende: alguém se lembra deles? O primeiro, gravado em 79, traz sucessos gauchescos do tipo ‘‘Pára Pedro’’, ‘‘Prenda Minha’’ e ‘‘Coração de Luto’’. Aquelas coisas!!! Apesar do modelão black power da capa, o som do Trio Mocotó é sambão com leves interferência de soul music. Há coisas legais como ‘‘Não Adianta’’ (Fritz/Aloisio), mas há besteiras das grossas como ‘‘Xuxu Melão’’ (Nereu-Fritz). Um disco feito para fãs – se é que ainda o trio os tem!
Para quem gosta de jazz, a pedida é Rich And Famous do baterista norte-americano Bernard Rich, ou simplesmente Buddy Rich. O disco é de 1980. Buddy começou a toca bateria desde cedo – aos 11 anos, só para se ter uma idéia, já era titular de uma banda. Em sua vida artística, trabalhou com a Jazz At The Philarmonic, na década de 40, quando trabalhou com importantes nomes como Dizzy Gillespie, Charlie Parker, Lester Young, entre outros.
Buddy morreu em 87, aos 70 anos. Um fato curioso aconteceu quando se preparava para a cirurgia da qual viria a falecer. A enfermeira ao lhe perguntar se era alérgico a alguma coisa, o baterista de pronto respondeu: ‘‘Só a country music’’. Na lata!! Se o country tradicional já é de amargar, imagina o que Buddy Rich falaria das imitações baratas praticadas no Brasil.
Pois bem, ‘‘Rich and Famous’’, um de seus últimos trabalhos, Buddy dá um show de categoria. O problema é que não se sabe – mais uma vez a gravadora deveria ter se preocupado com a ficha técnica – quem são os músicos de sua orquestra. Os destaques são as faixas ‘‘Cottontail’’ (Duke Elligton) e ‘‘My One and Only Love’’ (Mellin), esta última de se ouvir no volume mais alto e, se possível, com um copinho de uísque na mão.A gravadora Movieplay está colocando no mercado um pacote com nove discos, entre inéditos e relançamentos digitalizados
Arquivo FolhaO CD de Toquinho e Paulinho Nogueira reúne os dois violonistas numa gravação históricaReproduçãoFazem parte do pacote alguns discos imperdíveis como o de Toquinho e Paulinho Nogueira, Zimbo Trio, Lenita Bruno e Buddy Rich

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