Nove contos para ler de cabo a rabo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 2008
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Custódio é um miserável que precisa arrumar cinco contos de réis para mais um negócio desastroso; Nicolau tem um último desejo, que é ser enterrado em um caixão fabricado por Joaquim Soares; Joaquim Fidélis mantém um certo caderninho onde descreve com a maior sinceridade do mundo o caráter e as particularidades de seus amigos; Inácio é feliz com seu violoncelo até conhecer o cavaquinho, que acaba arruinando sua vida. Deolindo Venta-Grande leva a sério as promessas de Genoveva, uma cabecinha de vento. Tem ainda um canário que muda de ponto de vista junto com a paisagem e o menino José Martins, que não tirou férias mas teve uma grande alegria.
São assim os personagens de ''O Espelho e Outros Contos Machadianos'', uma coletânea de nove textos de Machado de Assis escritos a partir de 1880, época em que, segundo ele mesmo, ''perdera todas as ilusões sobre os homens''.
Por trás de relatos aparentemente simples, ele desvenda as complicações da alma humana e retrata uma época que parece atual.
Em Galeria Póstuma, a morte de Joaquim é lamentada por todos, até que os amigos mais chegados encontram um diário onde ele descrevia, em detalhes, mais os defeitos que as virtudes de cada um deles. Essa combinação de humor e desencanto, que Machado colheu na Bíblia, nos filósofos e na sua própria vida, aparece em cada conto - e ele escreveu mais de duzentos!
Difícil não se comover com a decepção de Deolindo, marinheiro que guarda há meses o coração para reencontrar a amada e a descobre já morando com outro, no conto ''Noite de Almirante''. Pior que a dor do rapaz é enfrentar a frieza da moça. Genoveva aceita os brincos que ele havia comprado para ela e explica, com a maior simplicidade, que a vida é assim mesmo - amor vai, amor vem.
Em vez de cinismo, Machado usava uma franqueza tão franca que parecia coisa de criança. E às vezes era. O pequeno José Martins, personagem de ''Umas Férias'', fica eufórico quando o tio vem buscá-lo na escola. Durante todo o caminho até a casa, fica imaginando o motivo da surpresa: férias, quem sabe, ou uma festa. Era o velório do pai. ''Se me houvessem dito à saída da escola por que é que me iam lá buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde era agora expelida a punhadas'', conta o menino. A dor, no entanto, não pode permanecer muito tempo num coração tão jovem, e tão vivo. Sete dias de luto e José acaba pedindo para voltar à escola, onde acha ''uma grande alegria sem férias''.
A filosofia e a influência dos grandes pensadores se faz aparente em ''Idéias de Canário e O Espelho''. A ave, falante, sempre descreve o mundo a partir da paisagem que enxerga da gaiola, e à medida que a gaiola muda de lugar, esquece completamente a definição anterior. Jacobina, provinciano, capitalista, astuto e cáustico, conta aos amigos, durante um serão, um ''caso'' que explica uma curiosa teoria - a de que todo ser humano tem duas almas, uma exterior, que olha de dentro para fora, e a outra interior, que olha de fora para dentro.
E ainda há uma autêntica anedota entre os contos: ''O Empréstimo''. Custódio, um parasita social que sobrevive à custa de uma tremenda cara-de-pau, entra no escritório de um tabelião para pedir-lhe determinada quantia emprestada. A cada negativa do outro, Custódio vai diminuindo o valor do pedido e da vergonha na cara. No final... bom, a gente não pode contar o final mas digo que dá vontade de sair correndo atrás do Custódio, nem que fosse para derrubar e pisotear-lhe o chapéu. (Machado seria bem capaz de entender esse rompante de maldade).
SERVIÇO
- O Espelho e outros contos Machadianos
Autor - Machado de Assis
Organizador - Ivan Marques
Editora - Scipione
Ilustrações - Angelo Abu
Páginas - 150
Quanto - R$ 25,90


