São Paulo - Big band, como o nome diz, é uma banda que tem entre 10 e 25 músicos que tocam saxofone, trombone e trompete, além de uma seção rítmica com guitarra, bateria, baixo e piano. E que, tradicionalmente, costuma executar músicas do estilo jazz. Para tocar numa formação como essa, o músico precisa ter muita disciplina (para ensaiar e adquirir a técnica), concentração (para ouvir, ao mesmo tempo, o próprio som e o de todos os outros músicos do grupo) e habilidade (para improvisar coletivamente quando isso é hábito da banda). Por causa desse grau de complexidade, não era difícil ver instrumentistas de big bands de cabelos brancos, o que denunciavam os muitos anos de profissão. Esse perfil, porém, vem mudando. Jovens com até 30 anos têm dado às big bands uma nova cara.
O trombonista Paulo Malheiros, 30 anos, por exemplo, diz que se antes as grandes bandas brasileiras restringiam-se ao jazz, à bossa nova e ao samba, agora novos estilos vêm sendo trabalhados graças aos jovens que trazem outras referências. ''Tenho amigos que tocam ska e reggae em suas big bands'', conta. ''Sou partidário do choro, do baião e do jazz, claro'', completa. Malheiros toca na banda Soundscape e virou líder dos trombonistas com apenas 26 anos. Antes, aos 19 anos, ele formou a big band Reteté. Com orgulho, diz que teve o prazer de tocar com o saxofonista americano David Liebman - que foi parceiro de Miles Davis, uma das lendas do jazz.
Além de competentes, os jovens aproveitam a experiência em outras searas no trabalho com as bandas grandes. O trombonista Odirlei Justino Machado, de 30 anos, afirma que ter tocado na banda de sua cidade natal, Jacareí (interior de São Paulo), fez com que desenvolvesse habilidades importantes. ''Íamos do axé ao blues. Aprendi maneiras e dinâmicas diferentes para articular meu instrumento com o dos outros'', diz. Hoje, ele faz parte da Projeto Coisa Fina, da Meretrio e da Metal Manera - banda de Chico Oliveira, um dos integrantes do sexteto de Jô Soares.
CLÁSSICOS NO YOUTUBE
O fato de esses instrumentistas serem da primeira geração brasileira que teve acesso à internet durante a adolescência traz novidades na forma de se pesquisar a música. O saxofonista Rafael Ferreira, de 30 anos, utiliza vídeos do YouTube para estudar os jazzistas norte-americanos dos anos 30, 40 e 50. Além disso, o músico da Banda Urbana e do Grupo Comboio está sempre atento ao que está sendo produzido no mundo. ''Não tenho o estilo musical consolidado e isso me torna mais aberto a outras referências'', diz. ''Outro dia, mostrei a um integrante antigo da banda o trabalho do multi-instrumentista norte-americano Chris Potter. Ele adorou'', conta.
Vale frisar, porém, que apesar desses músicos contribuírem com os veteranos das big bands, têm humildade suficiente para admitir que ainda precisam evoluir muito para chegar ao nível dos mais experientes. O contrabaixista Bruno Migotto, de 24 anos, integrante da Soundscape, admite que, por mais talento que tenha, não improvisa da mesma forma que um integrante das antigas. ''Sempre fui o mais novo nas big bands em que toquei. Pedia muitos conselhos aos mais velhos'', afirma o instrumentista.
Outro que ouviu e ainda ouve o que a velha guarda jazzista diz é o trombonista Jorge Pereira Neto, de 28 anos, que toca nos grupos Banda Urbana, Reteté, Savana e Soundscape. Aos 24 anos, a empolgação em fazer um solo o levava a querer colocar tudo o que sabia no trecho musical. ''Então o líder da banda me dizia que o solo tinha muita informação'', conta. Hoje, por ter incorporado o conselho, Neto consegue construir trechos musicais harmônicos e equilibrados.
O aprendizado leva a metas ambiciosas. ''O próximo desafio é escrever arranjos. Ainda não tenho conhecimento suficiente, então estou estudando bastante'', revela Neto. O trompetista Maycon Mesquita, de apenas 20 anos e que toca na Reteté, também tem planos ousados. ''Quero ser líder na banda'', diz. ''Perseverança eu tenho. Passei três anos estudando para fazer meu primeiro solo'', completa. O que não falta são músicos tarimbados para ajudá-lo.
Essa relação de troca é amistosa e construtiva, de acordo com Amador Bueno, de 59 anos, líder da Jazzco - a big band mais antiga do Brasil, com 36 anos de jazz. ''Unimos nossa experiência à energia dos jovens e o resultado é música vibrante e de qualidade.'' Na Soundscape, o líder Júnior Galante, de 47 anos, diz que o clima familiar dá o tom dos ensaios. ''O saxofonista Carlos Alberto Alcântara, de 78 anos de idade e 60 de profissão, é chamado carinhosamente pelos jovens de ''Uncle Charles'', diz.
Ao longo da história, as big bands também abençoaram o público com uma impressionante leva de estrelas, como o compositor, arranjador e intérprete Duke Ellington, o blue eyes Frank Sinatra, Carmen Miranda, Bing Crosby, Billie Holiday e Ella Fitzgerald.

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