O pop carioca revela novas vozes femininas nesta temporada. Arícia Mess, 40 anos, chega ao público com ‘‘Cabeça Coração’’, primeiro lançamento do selo independente Órbita, criado por Carlos Trilha e Fernando Morello, que assinam a produção do CD.
Hannah Lima, 28 anos, debuta no mercado fonográfico com ‘‘Intuitiva’’, chancelada pela gravadora Abril Music. As duas estreantes já participaram de discos da cantora Fernanda Abreu, com quem se identificam no apelo aos recursos da eletrônica e às batidas dançantes.
Como Fernanda, ambas incursionam com desenvoltura pelos ritmos da black music. Mais sutil no cosmopolitismo musical, Arícia Mess revela-se contida como intérprete, embora sugira potencial para explodir em performances ao vivo. Foi cantando ao vivo, aliás, que ela conquistou admiradores no circuito de bares e casas noturnas cariocas.
Em disco, só havia registrado a voz numa faixa do álbum ‘‘Raio X’’ (1997), de Fernanda Abreu. Agora tenta disputar seu espaço com um CD independente, que teve uma parte da tiragem de 3 mil cópias distribuída no Japão, onde cantoras desprezadas no Brasil como Joyce e Diana Pequeno têm um público cativo. No disco, Arícia assina as faixas com vários parceiros e ainda divide os arranjos com os produtores Fernando Morello e Carlos Trilha.
Os arranjos marcam pontos no trabalho combinando timbres eletrônicos e acústicos. É o que se ouve em ‘‘O Homem dos Olhos de Raio X’’, de Lenine, no qual violão, orgão e programação revestem versos como ‘‘Quando você olhou pra mim / indecisa / foi como se eu fosse / a razão do riso da Monalisa’’. Aqui, é possível flagrar vestígios de trip hop, ecos de Massive Attack.
Mas, ao contrário de Hannah, Arícia parece filtrar as referências internacionais acomodando-as num sotaque particular. As letras inspiradas também conferem classe a seu repertório. Em ‘‘Parar o Mar’’, ela pergunta: ‘‘Quem é que vai mandar / parar o mar / de bater / Quem é que vai mandar / você se conter’’.
Em ‘‘Armário’’, parceria com Mathilda Kovák, confessa: ‘‘Quero entrar / no armário / com você / dessarrumar gavetas / derrubar cabides / cheirar naftalina / ficar louca / com você / no armário / e o mundo lá fora / sem saber de nada’’. A surpresa fica para o final com ‘‘Cangoma’’, uma peça do folclore brasileiro que ganha as batidas hipnóticas do tecno.
Hannah, por sua vez, transita entre o r&b, o hip hop e o funk lembrando bastante Fernanda Abreu em algumas faixas. Com pelo menos uma década de atuação, chegou a cantar com Sidney Magal e participar do revival da banda Blitz, entre 94 e 96. Ao ser contratada pela Abril Music, já estava com o álbum de estréia praticamente pronto.
Só teve o trabalho de gravar novamente as canções. A exemplo de Arícia, Hanna canta, compõe e cuida dos arranjos (estes feitos em parceria com o multiinstrumentista Hélio Gomes). Além das composições próprias, traz duas versões: ‘‘Certas Coisas’’ de Lulu Santos, e ‘‘Deixar Voc꒒ de Gilberto Gil.
Gabriel O Pensador aparece como parceiro em ‘‘Cantada Barata’’ e como colaborador virtual na candidata a hit ‘‘Periga eu te Conquistar’’ (uma versão de ‘‘Somebody Else’s Guy’’), que inclui um trecho de sua ‘‘Festa da Música’’ e participação do rapper angolano Nelboy Dastha Burtha.
Hannah apropria-se ainda do tema e do refrão de ‘‘Sexual Healing’’, clássico de Marvin Gaye, em ‘‘Banho de Paz’’. A moça faz música dançante, radiofônica, inspirada em pistas de bailes black cariocas. Na comparação com Arícia Mess, soa excessivamente pasteurizada.

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