Novas expressões no palco
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 18 de maio de 2000
Francelino França De Londrina 
O público londrinense se deparou novamente com uma língua ficcional no Filo 2000. Sem necessidade de tradução simultânea, os espectadores que compareceram ao espetáculo Fulano e Sicrano, do Centro Teatral e Etc e Tal, na quarta e quinta-feira, no Teatro Zaqueu de Melo, captaram a mensagem do abahu, idioma que privilegia as interjeições criado pelos atores Álvaro Assad e Márcio Moura. Só para refrescar a memória, nos dias 10 e 11 de maio, o grupo Os Privilegiados trouxe o unamunda, outro idioma genuinamente carregado da ginga carioca.
O abahu zerou todos os significados da língua portuguesa, valorizando a marcação de cena, as atitudes e os signos gestuais. A vertente teatral escolhida pelo grupo traz num único caldeirão várias correntes da expressão corporal, resultado de minuciosa pesquisa. A exploração da mímica e suas variações induz o olhar do público a se concentrar nos limites do corpo do ator. Isso requer do profissional um domínio completo e perfeito de sua arte. Sem o suporte de adereços, em situações do cotidiano, cada movimento deflagrava toda a imaginação do espectador, num espetáculo escrachado e hilariante. Álvaro Assad e Márcio Moura dominam plenamente seus instrumentos de trabalho: o corpo, a voz e a imaginação criativa. Redimensionam situações cotidianas, ressaltando o lado patético da vida.
Na fantasia do cotidiano mostrada no primeiro quadro Elizabeth Maria, o narrador sacana antecipa situações e coloca a personagem-título em situações embaraçosas e no final a pobre professora morre estatelada no asfalto. A relação de interdependência entre o narrador e a sofredora Elizabetth Maria criou os momentos mais hilariantes do espetáculo. O texto narrado pelo ator Márcio Moura, aparentemente banal, se tornou incandescente.
No espetáculo, mesmo gags conhecidas, como no quadro da perseguição em slow-motion com trilha sonora de Vangelis, pinçada do filme Carruagens de Fogo, impressionaram pela perfeição do ilusionismo. No último quadro, representando o nado sincronizado, os cômicos se valeram do deboche carioca para ressaltar o lado caricato do esporte.
Álvaro Assad e Mário Moura autênticos reis do riso marcaram o Filo 2000 pela incrível capacidade de manipular a realidade, trazendo a Londrina uma linguagem gestual apurada, sem débito algum para os maiores cômicos do País. Ganharam o público graças à versatilidade, carisma e grande expressividade. Fulano e Sicrano propõe uma comunicação em síntese, ancorada principalmente na mímica. Essa arte de sugerir, indicar, subentender, fazer imaginar, busca fingir a realidade, não imitá-la.


