NOVAS CHANCES - Uma janela para o futuro
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 06 de abril de 2004
Fernanda Bressan<br>Reportagem Local 
Um ato infracional grave praticado, a consequente privação de liberdade, conviver na Febem em São Paulo (SP) com outras 80 adolescentes na mesma situação. O que poderia levar a um futuro sem esperança e uma vida de caminhos incertos e tortuosos está tomando outro rumo com a realização de cursos profissionalizantes. ''Em uma parte foi muito bom ter vindo para cá (para a Febem), porque deu para aprender muita coisa que eu não tive oportunidade antes'', observa a adolescente Ana (nome fictício) de 17 anos.
Há oito meses no Internato Parada de Taipas, da Febem de SP, por ter praticado um assalto a mão armada, Ana confessa que antes ficava só na rua com as amigas. ''Hoje consegui conquistar o amor de meu pai e minha mãe de novo'', comemora. Ela participa dos cursos oferecidos na unidade, muitos deles fruto do Programa Empresário Amigo da Febem. Entre os parceiros do programa está a empresa BIT Company, que ministra três cursos profissionalizantes com as adolescentes tanto do internato quanto as que estão na Unidade de Semiliberdade da Penha, também em São Paulo. As adolescentes aprendem técnicas de atendimento, vendas e telemarketing.
Para Ana, os cursos são uma oportunidade de ter um futuro melhor. ''Vale a pena, porque só posso arrumar um serviço registrado através do estudo. O estudo é tudo para nós'', aponta. Sem nunca ter trabalhado, Ana nem sequer estava estudando quando foi encaminhada para a unidade. ''Voltei a estudar aqui. Sempre gostei de estudar, mas depois que começei a me envolver e ir para o lado errado... Agora eu posso dizer que venci'', conta.
Clara (nome fictício), 19 anos, também afirma que hoje é uma pessoa melhor. Ela cometeu um assalto à mão armada quando ainda era menor de idade e destaca que hoje não quer mais praticar esses delitos. ''Aqui a gente aprende outras coisas e de outra maneira. Fiz curso de informática e agora estou fazendo de telemarketing. Estão até tentando arrumar um emprego para mim'', comemora. Clara acrescenta ainda que ficou mais madura e hoje difere o que é certo do que é errado. ''Todo mundo passa por dificuldades, mas nós temos que superar'', sentencia.
Há um ano na Febem, Clara aguarda o dia da liberdade. ''Estou quase para sair'', comenta. E a vontade de sair tem relação com a saudade que sente da família e da filha, que tem apenas 2 anos. ''Vejo ela uma vez por mês'', relata. O desejo de ser um pessoa melhor também se refere à preocupação com a filha: ''Tenho que mostrar que sou uma mãe estruturada''. Apesar da saudade e da privação da liberdade, Clara confessa que foi importante passar por essa experiência. ''Se eu não tivesse vindo para cá, poderia estar morta ou até na cadeia'', justifica.
A mudança no comportamento das meninas já é visível para a diretora do Internato Parada de Taipas, Márcia Galvão Juzo. ''Vi muitas estudando com a apostila nos quartos'', ilustra. Márcia diz que todas as adolescentes são convidadas a fazer os cursos, mas só efetivamente participam as que têm vontade. Sobre os cursos oferecidos pela BIT Company, a diretora destaca que estão sendo muito bem aproveitados. ''As meninas se identificaram muito com a instrutora porque ela é bem jovem como elas'', comenta.
Márcia descreve que durante as aulas muitas vezes a instrutura acaba dando lições de bom comportamento em situações triviais, como a entrada de alguém na sala que é sempre acompanhada de um ''pois não?'' e ''obrigada''. As aulas são para Márcia um ''despertar de oportunidades''. Ela argumenta que o universo das adolescentes é, em sua maioria, caracterizado por carência material e afetiva. ''Sempre digo para elas que quando a gente faz as coisas com amor tudo fica melhor'', aconselha.
A diretora acredita que há uma porta aberta para o futuro das adolescentes porque a empresa se dispôs a contratar aquelas que se destacarem. ''Temos uma interna que saiu da unidade antes de terminar o curso. Ela continuou na empresa e agora vai fazer uma entrevista para ser estagiária. Se a gente conseguir, vai ser muito bom para elas'', expõe. A preocupação com o futuro das adolescentes se fundamenta no alto índice de criminalidade existente hoje. Márcia destaca que a reincidência das adolescentes é alta. ''Temos um universo de meninas infratoras crescendo muito. O índice de criminalidade feminino está muito alto'', define.
Para a gerente da BIT Company, Ângela Manzoni, ''a empresa entende que pela educação e oportunidade, é possível fazer um país melhor''. Segundo Ângela, a intenção da BIT Company é contratar 100 adolescentes em um ano. ''Depois que fizermos o curso, vamos fazer entrevista com as que tiverem perfil adequado e estas farão um estágio para depois serem contratadas'', explica. As primeiras turmas começaram o curso em 20 de fevereiro e a duração de cada um é de três meses.
Ângela observa que durante as aulas fala-se muito sobre postura profissional. ''Elas estão sentando e falando mais correta e formalmente'', cita. A gerente aponta ainda que em nenhum momento houve problemas com o comportamento ou desrespeito em sala. ''Elas respeitam muito os instrutores'', acrescenta. E as adolescentes reiteram as afirmações. ''Aprendi bastante coisa: como falar com a pessoa e como a gente pode atender o cliente'', diz Ana. E Clara completa: ''Estou aprendendo a atender com elegância''.


