São Paulo, 17 (AE) - As músicas novas do show "As Cidades" - as que estão no novo disco - aparecem cercadas, por assim dizer, acolchoadas, como quer Chico Buarque, entre os "algodões" das que já são conhecidas. Mas serão? Há quanto tempo músicas de Chico Buarque não tocam no rádio, muito menos na televisão? Em trilhas sonoras de novela, sua presença é rarefeita e já se vão muitos anos desde a última vez. Ele se lembra de "As Vitrines" e "João e Maria": "Essas são cantadas até hoje, percebe-se a resposta da platéia", diz (João e Maria, parceria com Dominguinhos, não está no roteiro do show que estréia amanhã).
O disco deve vender, até o fim do ano, algo em torno de 300 mil exemplares, número muito distante dos milhões contabilizados pelos nomes populares, aqueles que estão nos programas dominicais da televisão. "As Cidades", o show, foi visto, durante a temporada no Canecão, no Rio de Janeiro, por cerca de 40 mil pessoas. Fazendo uma conta rápida, Chico acredita que pelo menos metade da platéia de cada noite não conheça nenhuma das músicas novas.
No entanto, houve sempre, na platéia carioca, e ele acredita que se deva repetir aqui o fenômeno, um número muito grande de adolescentes que não tinha idade ao menos para assistir ao último show dele, há cinco anos. "E é curioso que os mais jovens, quando vêm falar comigo no camarim, depois do show, comentem o disco novo, faixa por faixa, dêem as preferências e as justifiquem" - enquanto os mais velhos preferem comentar as músicas mais antigas. O que leva o compositor a concluir que: em primeiro lugar, existe um público novo, em formação; em segundo lugar, seu público coetâneo ouve menos as coisas novas. "Gente mais velha compra o disco, mas para dar de presente", supõe.
Não estipula uma regra. Para negar o que disse conta uma anedota. Uma amiga de sua filha comentou com esta: "Comprei um disco de seu pai, mas não gostei: não tem nenhuma música conhecida". O compositor acha muito engraçada a situação, que de fato é engraçada, mas tira dela uma conclusão que merece pausa para pensar: "Só se gosta do que já se conhece".
Até onde se possa imaginar, sempre foi assim. Há uma tendência natural, humana, de saborear a saudade dos "velhos bons tempos", mesmo que não tenham sido tão bons (e não sejam tão velhos). A situação parece, no entanto, ser mais grave nos anos 90, quando não se dá opções ao ouvinte: ele só vai lembrar-se do que toca no rádio e na televisão e a escolha do que vai tocar é feita por interesses puramente comerciais. Arte está fora de questão. Chico Burque está fora de questão.
Ainda assim, renova-se o público e, pelo menos nos shows
a platéia ganha o direito de manifestar preferências. Hoje, quando uma gravadora decide que vai pagar para que determinado disco toque no rádio, decide, ao mesmo tempo, que faixa do disco vai ser tocada - para massificar a divulgação. Chico Buarque conta que as diferente platéias demonstram gostar mais, a cada noite, de músicas diferentes. Em outras palavras, o público sabe julgar, tem gosto individual e capacidade de eleger suas preferências. Assistir ao "As Cidades" é chance de manifestar essa capacidade, exercer esse poder - esse direito. (M.D.)

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