Ele chega em dezembro. A editora Record vai publicar, apenas dois meses depois do seu lançamento na França, a edição brasileira de ‘‘A Galera de Asterix’’, o novo álbum dos gauleses malucos criados por Albert Uderzo e René Goscinny.
A editora ainda não sabe informar quantos exemplares serão colocados à venda. Na França, o novo livro de Asterix saiu com uma edição recorde: 8 milhões de exemplares. Com perdão do exagero, os franceses trataram o retorno dos gauleses com o mesmo entusiasmo com que saudaram os soldados que combateram o nazismo durante a Segunda Guerra.
Também pudera: ‘‘A Galera de Asterix’’ é o primeiro álbum do personagem desde 1991 e o trigésimo de uma coleção que começou na revista Pilote, em 1959, e teve 280 milhões de exemplares em 78 idiomas.
No novo álbum, o baixinho invocado Asterix resgata seu amigo roliço Obelix do continente perdido de Atlantis. Asterix, segundo a descrição padrão dos gibis de Uderzo e Goscinny, é o ‘‘pequeno guerreiro de espírito sagaz e inteligência viva’’, que aceita sem vacilar as missões perigosas que lhe são confiadas. Obelix é o amigo inseparável de Asterix, um entregador de menires que adora javalis e boas brigas. Anda acompanhado do cachorro Ideiafix.
Barulho Os jornais franceses receberam o lançamento de ‘‘A Galera de Asterix’’ com muito barulho. O jornal France Soir ocupou a primeira página inteira com uma charge, na qual ele está mexendo um caldeirão com ingredientes como o terrorismo e os problemas de segurança pública enquanto observa: ‘‘Acho que fiz alguma coisa errada.’’ É uma referência, segundo o jornal, aos problemas atuais enfrentados pelo primeiro-ministro Alain Juppé, como a onda de greves recente na França.
O France Soir foi o mesmo jornal onde Uderzo, 69 anos, anunciou que encerraria a carreira de Asterix. ‘‘Para mim, acabou’’, disse. ‘‘Estou esgotado’’, declarou, após perder uma batalha judicial contra a editora Dargaud.
O livro de retorno está sendo vendido inicialmente em 15 idiomas na Europa, após uma complexa operação para distribuir o livro pelo continente sem revelar seu conteúdo.
Direitos Albert Uderzo desenhou sozinho seis livros de Asterix desde a morte de seu colaborador, o escritor René Goscinny, há 19 anos. Segundo a revista Capital, Uderzo recebe mais de 20 milhões de francos por ano de direitos autorais com Asterix.
Alguns críticos argumentam que a coleção ficou menos engraçada e perdeu a presença de espírito desde que Uderzo, que é daltônico, resolveu continuá-la sozinho, mas as vendas sempre foram altas. Nem Tintin, o repórter intrépido criado pelo belga Georges Rémi (o Hergé), com 150 mil exemplares vendidos no mundo inteiro, chega perto do sucesso da coleção Asterix, que movimenta toda uma indústria de merchandising, filmes e outros negócios.
Uderzo, filho de imigrantes italianos, ex-desenhista do jornal France Dimanche, fã de ‘‘O Gordo e O Magro’’, felizmente voltou atrás na sua decisão de nunca mais escrever outro volume com o pequenino gaulês. No lançamento do novo livro, ele declarou: ‘‘Não me sinto velho para parar de trabalhar.’’
Uma pesquisa recente na Europa, sobre quais os nomes dos personagens clássicos que a juventude se lembra de ter lido, deu zebra na Inglaterra: Asterix na cabeça. Isso foi encarado como falta de conhecimento literário pelos organizadores da pesquisa, mas pode ser visto também como uma demonstração de senso de humor e bom gosto. Os leitores ingleses devem se interessar principalmente por uma nova personagem, um padre chamado Absolutelyfabulus, enquanto o ator americano Kirk Douglas faz uma aparição especial como um escravo grego, inevitavelmente chamado Spartakis.
A turma Além dele, estarão presentes, como de costume, os personagens-chave da história: Panoramix, o venerável druida da aldeia, que colhe zimbro e prepara poções mágicas que dão força sobre-humana ao baixinho Asterix; Abracurcix, o chefe da tribo, ‘‘majestoso, corajoso e colérico’’; e Chatotorix, o bardo mais chato de toda a Gália.
O lançamento de ‘‘A Galera de Asterix’’ coincidiu com a publicação de um outro livro, Uderzo Sketched by His Friends, em que 26 amigos cartunistas fazem uma homenagem a Uderzo, Asterix, Obelix e aos demais gauleses que lutaram durante tanto tempo contra os invasores romanos e deram origem a um dos cultos mais afetuosos e resistentes do mundo.
Asterix foi idealizado numa tarde qualquer há 37 anos, num apartamento modesto na periferia de Paris, em Bobigny-les-Courtillieres. Uderzo e Goscinny, em uma sessão brainstorm, se lembraram de uma frase corrente na França: ‘‘Eureka! Nossos ancestrais, os gauleses.’’ Inventaram então um lugarejo fictício por volta de 50 a.C. e adicionaram à fórmula os nomes terminados em ix. Foi um sucesso instântaneo e monumental.
Para Uderzo e Goscinny, a idéia geral era criar personagens europeus que se contrapusessem aos heróis estandartizados dos quadrinhos americanos. Asterix é descrito pelos seus autores como ‘‘um homem que não se leva muito a sério e que coloca em dúvida todos os valores culturais que lhe são impostos’’.
Prestígio Era a diferença. Asterix não subestimava seus leitores. No prefácio que escreveu para o álbum Les Chefs-d’Ouvres de la Bande Déssinée, Goscinny afirmou: ‘‘O gosto do leitor pela perfeição da técnica, pelo detalhe e pelo realismo nos obrigou a todos, desenhistas, a frequentar bibliotecas, museus, a percorrer estradas e a visitar novos países onde se situam as aventuras dos nossos heróis.’’
Quando produziu o álbum ‘‘Asterix & Cleópatra’’, Goscinny contou com a ajuda de um egiptólogo. Goscinny era um perfeccionista. Nasceu em 1926 e morreu em 1977, de ataque cardíaco. Deixou a mulher, Gilberte, e uma filha, Anne Goscinny, de 28 anos.
Só para ter uma idéia do prestígio de Asterix, é bom lembrar que - apesar da Eurodisney e de todas as tentativas americanas - é o personagem mais desenhado na Europa, batendo Mickey no item popularidade. O Parque Asterix, perto do Aeroporto Charles de Gaulle, 38 quilômetros ao norte de Paris, com 170 hectares de extensão, tem mais visitantes que a Eurodisney. Quando comemorou aniversário, a rede McDonald’s francesa instituiu cardápios Asterix.
Asterix já foi publicado em quase 80 línguas, entre as quais o latim, o catalão e o esperanto. Quando o personagem comemorou 35 anos, o primeiro-ministro Jacques Chirac inaugurou uma exposição na prefeitura de Paris. Foi levado ao cinema em sete longas-metragens - o próximo, dizem há meses, terá Gérard Depardieu como Obelix e Daniel Auteil como Asterix.
Qual é a razão da popularidade? Asterix é um anão sexagenário, narigudo, feio e raquítico. Obelix é um operário grosso e desajeitado. Mas os franceses reconhecem neles a essência do espírito francês, a espirituosidade, a resistência à invasão, o desprendimento. ‘‘O francês é o primeiro a se autocriticar’’, disse Uderzo certa vez, enxergando uma identificação do personagem com o cidadão médio da França.
Nostalgia Em Asterix nunca há mortes, nunca há maldade, viaja-se o tempo todo: é o mundo fictício ideal, onde se critica o avanço da modernização e a excessiva seriedade dos que exercem o poder. ‘‘É preciso ter um profundo sentimento do ridículo e explorar o lado ridículo da vida’’, diz Uderzo. ‘‘Eu sempre temi o ridículo, a falta de modéstia, mas, por outro lado, o humor também é uma forma de pudor’’, diz o desenhista, fã de Cervantes e de seu ‘‘D. Quixote’’.
Antes do lançamento do novo Asterix, Uderzo se dizia apreensivo. ‘‘Quanto mais velho fico, mais sucesso faço e mais medo tenho’’, afirmou. Na verdade, os últimos álbuns de Asterix nem são tão bons assim. O que permanece é uma grande nostalgia dos tempos em que eles nos fizeram rir do nonsense da vida.
Não há mais novidade, mas os personagens estão impregnados na nossa memória, inclusive os secundários. A mulher do Veteranix, a venerável loira burra Yellowsubmarine, a dona de casa Naftalina, o dono do mercado de peixes, Ordenalfabetix, e por aí vai. Politicamente correto nos últimos álbuns, Asterix também manteve uma extrema coerência no seu relacionamento com o mundo capitalista. Jamais foi usado em propaganda de cigarros ou bebidas.

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