Novamente com os presidenciáveis
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 20 de setembro de 2002
Rodrigo Teixeira<br> TV Press 
William Bonner acredita cegamente no poder do ''Jornal Nacional''. Para o editor chefe do telejornal, que está comemorando 33 anos neste mês, é impossível alguém sentar na bancada do ''Jornal Nacional'' e falar o que bem entender sem medir as consequências. Principalmente se forem candidatos à presidência da República, que não iriam arriscar se alterarem na frente dos mais de 30 milhões de brasileiros-eleitores que acompanham diariamente o telejornal. Por isso, William afirma que o segundo encontro ao vivo com os presidenciáveis no ''Jornal Nacional'' a partir de segunda-feira deve transcorrer em um clima cordial. ''Nenhum político vai querer entrar para a história como o primeiro que deu um chilique na bancada do 'JN'. Aposto que nenhum deles vai sair da linha'', provoca.
O apresentador de 38 anos lembra que houve uma grande preparação para encarar os candidatos nas entrevistas ao vivo, algo inédito no ''Jornal Nacional''. O apresentador, por exemplo, participou das reuniões de pauta do ''Bom Dia Brasil'' e ''Jornal da Globo'' e estudou detalhadamente as perguntas a serem feitas. Outros jornalistas, como Renato Machado, Miriam Leitão e Franklin Martins, também estiveram presentes nas reuniões do ''JN''. ''A gente troca idéias, acha o tom das perguntas, bola as respostas e depois escolho a ordem com meus superiores'', explica William.
Como está sendo trazer os candidatos à presidência da República para serem entrevistados ao vivo no ''Jornal Nacional''?
Trazer os candidatos não é tudo. O mais importante para mim é mostrar, através das séries de reportagens, os problemas brasileiros que o próximo presidente terá de enfrentar. Isto é o principal. O ''plus'' é trazer os candidatos e dar a eles o espaço nobilíssimo do ''JN'', pelo público que ele atinge. O objetivo das entrevistas é esclarecermos questões de programa de governo e também exorcizarmos algumas questões que estavam mal explicadas. Coisas que eles tinham prometido, posições que manifestaram no passado e agora falam diferente, acusações de que eram alvo... Tudo isso fizemos na primeira rodada e vamos dar prosseguimento na segunda.
Os candidatos reclamaram que o tom das perguntas é inquisitorial. Você concorda?
No plural, não sei. Para mim, diretamente, na minha frente, apenas um candidato se queixou depois. Achou que não tinha havido um tratamento isonômico.
Foi o Serra.
Não vou dizer. Um outro saiu daqui feliz e lá na porta se queixou para a imprensa. Mas para mim, não falou nada. Disse que queria falar disso e daquilo e só havia falado de um assunto. Houve esta queixa. Mas dos outros dois não vi queixa nenhuma. Nós fizemos as perguntas que tinham de ser feitas na primeira rodada, pois havia muitas questões pendentes.
Você não teme que, por ser ao vivo, algum candidato fale o que quiser no ar?
Não. O candidato não fala o que quer. Ele fala o que é razoável para alguém que se dirige a uma multidão ao vivo numa televisão. As pessoas que pleiteiam o cargo máximo do executivo brasileiro têm de ter em conta que, diante da multidão e diante de entrevistadores polidos, é preciso um limite de até onde ele deve ir. É o razoável. É evidente que, numa hipótese que considero improvável, se um ou os quatro candidatos saírem da linha, vai ficar ruim para eles. Nenhum político que se preze vai querer entrar para a história como o primeiro a, na bancada do ''JN'' ao vivo para milhões de pessoas, subir nas tamancas e perder as estribeiras. É evidente que estamos preparados para que aconteça algo assim. E se acontecer, resolveremos. Mas aposto com você que não vai acontecer.
Você acredita que a cobertura destas eleições de forma geral está mostrando uma maior autonomia do ''JN'' perante o governo?
Olha, a história do ''JN'' é longa. É o mais antigo do Brasil. Nasceu há 33 anos. O ''JN'' tem muitas histórias e momentos. Foi um jornal que nasceu um ano praticamente após a instalação do AI-5. Nasceu com a proposta de mostrar o Brasil e o mundo e retratar o que os jornais de papel estariam estampando na sua primeira página. Este compromisso do ''JN'' é de 33 anos. Mas só posso me reportar ao período em que assumi o cargo de editor-chefe do ''JN'', em 1999. Desde então não tenho do que me envergonhar. Só publicamos o que temos certeza. E quando erramos, dizemos no ar que erramos. Já a má vontade reinante em setores da mídia em relação a tudo que diz respeito à Rede Globo, particularmente ao jornalismo, e ainda mais particularmente ao ''JN'', creio que não apenas as entrevistas com os candidatos, mas toda a cobertura das eleições, serve como uma espécie de ''cala-boca''.
Nas eleições de 1989, o ''JN'' foi acusado de editar o debate entre Collor e Lula de forma tendenciosa e que teria ajudado Collor a se eleger...
Na questão de 89, convencionou-se dizer que o Lula foi prejudicado. Mas o próprio Lula discorda. Já manifestou mais de uma vez isso para a mídia. Quando vier desta vez, se eu perguntar, ele vai confirmar isso. Ele já reconheceu que foi mal naquele debate. Mas esta é uma questão que prefiro ficar fora. Não participei daquilo. O que dizem é que houve uma edição no ''Jornal Hoje'' que parecia favorável ao Lula e outra no ''JN'' que parecia favorável ao Collor. Há quem tenha visto erro na primeira e há quem tenha visto erro na segunda...
A segunda rodada de entrevistas terá alguma diferença da primeira em relação ao formato?
Olha, as entrevistas terão 10 minutos também. A diferença é que provavelmente vamos ter que dividir em dois blocos.
Os candidatos ficam sabendo das perguntas antes do debate?
De forma alguma, senão não tem graça.
Qual foi o candidato mais imprevisível?
Nenhum. Porque para cada pergunta a gente imaginava a resposta, as réplicas, tréplicas... Isso porque a gente já viu o que os candidatos disseram a respeito dos temas principais.
Nesta segunda rodada de entrevistas o clima deve esquentar...
Acho que não, o ar condicionado é excelente. A temperatura é ótima...


