Nova York Por Aqui


By Gilberto Smaniotto & Marinês Utteich







Marinês Utteich



Cenas de East Village, bairro boêmio, de artistas e intelectuais mas que também abriga os homeless (sem teto) e hippies renitentes. Há quarenta anos, um apartamentozinho custava US$ 9,50. Hoje, já um muquifo, o mesmo imóvel não sai por menos de US$ 1,5 mil

Fotos de Lewis Hines, cedidas por George Eastman House



Algumas das fotos feitas por Lewis Hine que fazem parte da exposição ‘‘The Rise of Landmark’’. O fotógrafo registrou a construção do Empire State e acompanhou o dia-a-dia dos operários. Mais de cem milhões de pessoas já visitaram o topo do prédio



Um casal de amigos franceses. Primeira vez em Nova York. Eles nos surpeendem com perguntas sobre a cidade. Entre uma garfada e outra, num restaurante do Upper West Side, querem saber detalhes sobre a qualidade de vida dos nova-iorquinos, como anda a criminalidade e se é fácil receber a simpatia dos donos de Manhattan. Última pergunta: por que as sirenes dos gringos são tão barulhentas ?
Mal sabiam nossos amigos da nossa veia venenosa quando falamos dos nossos ‘‘coleguinhas’’ da terra do Tio Sam. E tínhamos esquecido que a rivalidade entre franceses e americanos é maior do que nosso veneno.
Nós x França ? Só perdemos a Copa do Mundo. Mas eles, depois da Segunda Guerra Mundial, foram passados para trás pelos americanos em tudo. Aos poucos, com a Otan, eles conquistaram a Europa - hoje têm bases na Itália, Espanha, Turquia, Inglaterra e vários outros países.
Nossos franceses perderam feio mesmo quando sua língua, muito difundida no final do século, virou moribunda depois da Guerra, substituída pelo inglês. Pardon. Sorry.

Respostinhas rápidas àsperguntas dos francesesPolícia
Começamos pela criminalidade. Diminuiu sim, mas a polícia continua corrupta e matando. Sua última vítima foi o negro Amadou Diallo, levou 41 tiros. Estava desarmado e era inocente - a violência da ação provocou vários protestos que quase derrubam o chefe de polícia Howard Safir.
A polícia, no sistema americano, é comandada pelo prefeito. No caso, o conservador Rudy Giuliani. Se por um lado ela comemora o feito de ter contido a criminalidade, por outro está envolvida em prostituição. Um grupo de 20 policiais da Delegacia Central de Midtown dava cobertura para um prostíbulo em troca de dinheiro e sexo. Foi um golpe duro no prefeito, porque ele estava em plena campanha de moralização - tinha mandado sua polícia fechar todos os inferninhos de Manhattan.
O chefe da polícia Howard Safir gosta de dizer que trabalha 24 horas por dia - mas passou vexame quando tentou tirar US$ 1,25 milhão da brasileira Mônica Nascimento, recepcionista de um hotel, depois que ela deu uma batida na traseira do carro da mulher dele, dona Susan Safir. A brasileireinha não se intimidou - botou a boca no trombone e mister Safir foi obrigado a recuar.
Vivendo em
Manhattan
Nossos franceses saíram pelas calçadas e se deram conta de que aqui também há piquetes e protestos. Na semana passada, num deles, mais de 100 homens e mulheres foram parar na cadeia. Eles fumavam maconha na rua pedindo a liberação do uso da droga.
No outro dia deram de cara com os homeless, os sem-teto, os últimos hippies que foram despejados de prédios invadidos no East Village, bairro boêmio, de artistas e intelectuais.
A Avenida C, com a Rua 9, virou um campo de batalha. De um lado a polícia, e do outro os homeless. O padre Pat Mahoney, que desde os anos 40 mora por aqui, já veio desabafando quando soube que tinha jornal brasileiro no pedaço. ‘‘Isto é capitalismo puro’’, disse ele. ‘‘Só quem tem muito dinheiro vai poder continuar morando em Manhattan.’’
O padre tem razão. A ilha está se tornando um dos lugares mais caros do planeta - o pessoal daqui tem nojo de pobre. No final da década de 40 por essas redondezas, alugar um apartamentinho de um quarto, mas dos minúsculos, custava US$ 9,50. Hoje, quase 40 anos depois, o mesmo apartamento não sai por menos de US$ 1,5 mil. Se passaram 40 anos. Sim, mas o muquifo ainda é o mesmo, de péssima qualidade apesar de estar no comemorado East Village.
Guerra
nas
estrelas
Caminhando um pouco mais, agora em Midtown, os franceses da gema deram de cara com uma enorme fila. Os fãs de Guerra nas Estrelas estão em frente a um cinema desde o dia 1º de maio para comprar um ticket e ver a estréia de ‘‘A Ameaça do Fantasma’’, no dia 19 - e as entradas só começarão a ser vendidas no dia 12. Dá para acreditar num exagero desses? ‘‘Eles realmente gostam de guerra’’, desabafou a venenosa francesa.
Na frente do cinema tem rodízio de quem cuida o banquinho, gente pintada, vestida a caráter, com tatuagens espaciais pelo corpo todo - sempre tem um exibido esperando as câmaras de tevê. Tem americano que tirou férias do trabalho para ficar na fila.

Empire State Building
Depois de ver a fila, foi a vez de entrar na fila. Agora a do Empire State Building. Mais de uma hora e meia para poder chegar até o 102º andar onde fica o observatório. Na Torre Eiffel não é diferente. Tem que ter paciência.
Pelo ‘‘Empire’’, que já foi o mais alto do mundo e perdeu lugar na década de 70 para o World Trade Center, já passaram mais de 100 milhões de visitantes. Mas a grande pedida vinha depois desse demorado passeio. Conhecer a história da construção do ‘‘building’’ através das fotos. A exposição ‘‘The Rise of Landmark’’, de Lewis Hine, está acontecendo no Newseum na 580 da Madison Avenue.
São 50 das 1.000 fotos que Lewis Hine tirou durante a construção do prédio. Ele acompanhou o dia-a-dia dos trabalhadores, quase todos imigrantes que passavam horas dependurados nos andaimes. De quebra, tem filmes e leitura sobre a construção do gigante.
Simpáticos
moradores
E chegou a hora de falar sobre a simpatia dos manhattenses. Eles são de um espírito de companheirismo muito raro - só gostam deles mesmos. Perguntamos a um professor porque os nova-iorquinos são tão frios e ele já veio chorando. ‘‘Talvez sejamos desconfiados e tenhamos medo deste mundaréu de gente que cai aqui em Manhattan’’,disse ele.
Aí nos queixamos que é muito difícil ter amigos por qui. Ele foi mais fundo.‘‘É muito difícil alguém dizer ‘I love you’ nesta cidade. Fazem muito sexo e pouco amor. Por isso resolvi namorar uma mulher da República Dominicana. Ela diz o tempo todo ‘te amo’, ‘com voz melosa’’’, completou o quarentão - fazendo boquinha de desejo e saudade. Poor man.
Defendendo tese
O assunto sem dúvida vira tese. Mas uma definição interessante que ouvimos até aqui, tentando sempre descobrir por que tanta frieza e medo, veio de um outro quase amigo, porque a gente não sabe o que rola na cabeça deles.
‘‘Quando a sociedade alcança o seu ponto de crescimento intelectual e tecnológico, ela pára de funcionar. E aqui tudo está parado. Pelo menos na parte afetiva.’’ It’s up to you. Cada um com a sua tese.
América:
we love you
Antes de pisar na terrinha, três anos atrás, ganhamos um livro chamado ‘‘América de A a Z’’, da jornalista Ana Maria Bahiana, que vive na América há mais de uma década. Ela definiu como são esses estranhos americanos que costumam tomar o elevador para ir para o segundo andar do shopping e depois andam milhas e milhas numa esteira ergométrica e fazem horas e horas de step. Vai aí um pedacinho do que a jornalista captou dos americanos. E sem exagero ela foi até delicada para defini-los.
América de A a Z
Homem
‘‘Fala grosso, ri alto e acha viril arrotar em público. É grandalhão, com tendência a bochechas, cintura grossa e traseiro avantajado. Fino fica esquisito, usa camiseta por baixo da camisa social branca. Em termos de idade mental dificilmente passa dos 8 anos de idade. Idealmente gostaria de viver num mundo só de homens, e vive mesmo: a turma do escritório, o sports bar, a partida de golfe, é mesmo o Clube da Bolinha. É arrogante e acha que todos lhe devem satisfação. Tem pé grande mas não sabe dançar. O que, em geral, é uma metáfora para muitas outras coisas.’’
Mulher
‘‘Tem voz aguda, que fica estridente quando ela quer mostrar que está animada com alguma coisa. Bunda não tem, mas os peitos, em geral, são grandes. O cabelo liso vive atormentado por permanentes radicais e tinturas oxigenadas. Usa muita meia de nylon, sutiã com enchimento, anágua, combinação. Seu homem ideal tem farta musculatura, dentes perfeitos e uma conta bancária ainda mais saudável. Consumidora incoerente. Recorta mil cupõezinhos para economizar 20 centavos em cada compra de supermercado, mas vive com os cartões de crédito estourados. Fuma mais que o homem e toma mais remédio também. Namora de olho no currículo do candidato. Planeja casamento como se planeja uma companha militar: atribuições de cada um, como se gasta dinheiro, como e quando se poupa, onde se mora, quando se compra a casa, quantos filhos, quando, em que escola, qual universidade.’’
Por Aqui & Por Aí
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See you next week. Bye.
Em tempo: as sirenes dos serviços de emergências de NY são programadas para tocar alguns decibéis acima de outros países, por causa do excesso de barulho e da concentração de edifícios gigantes de Manhattan.

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